Arquivo da tag: morte

Gabriel Pillar salvou a minha vida e a de muitos mais

 photo pillar_01.jpg

Há exatamente dez anos, fui acordado por um telefonema por volta das seis da manhã. Numa voz ainda incrédula, a Preta, mãe do Gabriel, foi objetiva: “O Gabriel bateu o carro e faleceu agora há pouco. O velório vai ser no cemitério da Santa Casa. Por favor, avisa o pessoal.” A incredulidade na sua voz fazia sentido: o Gabriel tinha apenas 22 anos e anteontem mesmo eu havia saído com ele. Na terça, iria participar da banca de seu trabalho de conclusão de curso. Deitei a cabeça novamente no travesseiro e fechei os olhos, tentando me convencer de que havia sonhado. Passados 15 minutos, comecei a fazer algumas das ligações telefônicas mais tristes da minha vida.

O funeral transcorreu como se esperaria do enterro de um jovem falecido de repente, cheio de projetos em andamento. Não apenas os amigos próximos e a família, mas muitas pessoas que apenas o conheciam “da Internet” apareceram. Muitos escreveram obituários comoventes. Jamais presenciei dor como a manifestada na ocasião pela Preta e pelo Valério. Ambos transmutaram ao menos parte dessa dor em algo que o Gabriel aprovaria, porém: um livro com material produzido por ele e alguns trechos das homenagens que recebeu ao longo do ano seguinte à sua morte. Se quiserem saber quem foi o meu amigo e qual impacto ele teve nas vidas de muita gente, basta ler este livro.

Eu mesmo, normalmente, estaria ao lado dele no veículo que colidiu num poste da avenida Mostardeiro, voltando da festa de final de ano da Casa de Cinema, no Ocidente. Venho tentando lembrar nos últimos dias o porquê de não ter ido a essa festa, mas não consigo. Talvez estivesse gripado, ou tivesse um trabalho final de disciplina do mestrado para terminar, ou mesmo estivesse ainda sofrendo de ressaca do sábado anterior. Quem sabe, apenas estivesse sem saco.

Nunca soube o motivo exato do acidente. Não sei se o Gabriel estava embriagado, com sono, ou se outro motorista embriagado fez alguma manobra que o levou a perder o controle do carro. De uma coisa, porém, eu sei: todos bebíamos e dirigíamos naquela época. Não porque não soubéssemos dos riscos. Afinal, Diza Gonzaga vinha há dez anos insistindo para que fôssemos mais responsáveis no trânsito. Como todos os jovens, não ouvíamos. Como as penalidades por conduzir um veículo embriagado eram pífias, ninguém pensava duas vezes antes de o fazer. O prejuízo imediato pagando a tarifa do táxi parecia mais grave do que a mera possibilidade de se acidentar.

Infelizmente, precisei perder um dos meus melhores amigos para começar a ouvir. Mesmo assim, a mudança de comportamento não foi imediata. Passei a evitar ao máximo sair à noite de carro, mas, quando o fazia, com frequência ainda bebia e dirigia. No dia seguinte, a ressaca era amplificada pela lembrança do ocorrido com o Gabriel. Aos poucos, o recado do cosmos começou a fazer efeito. Não apenas em mim, porque vários amigos passaram a ser mais responsáveis mais ou menos na mesma época.

Dois anos depois do acidente, a “Lei Seca” foi inserida no Código de Trânsito Brasileiro, embora não tenha surtido um grande efeito, devido à dificuldade em se aplicar as penalidades previstas. Foi um avanço, entretanto, na medida em que o processo de aprovação da lei trouxe maior conscientização a respeito do tema. As escolas passaram a incluir no currículo discussões sobre trânsito. Hoje, a minha filha, recém saída do jardim de infância, não deixa eu nem mesmo dar a partida no carro, se não estiver usando cinto de segurança, além de criticar veementemente qualquer pessoa que use o celular ao volante. Em 2012, o endurecimento da Lei Seca passou a realmente desmotivar os motoristas, ao menos no meu círculo de amizades, a dirigirem embriagados.

Quase 20 anos depois, Porto Alegre vem apresentando os menores índices de fatalidade no trânsito desde que a EPTC passou a coletar este dado. Até outubro, os números indicavam que 2016 seria o ano com menos mortes desde 1997. Quantos jovens como o Gabriel teriam sido perdidos desde 2006, se não fosse pelo avanço na conscientização dos motoristas e na fiscalização pelas autoridades? Quantas coisas interessantes nós perdemos junto com o Gabriel? Ele teria se tornado escritor? Teria criado aplicativos revolucionários para smartphones? Não se perdeu apenas um amigo, um filho, mas um talento que faria diferença em nossa sociedade.

Só lamento que não tenhamos dado ouvidos a pessoas como Diza Gonzaga antes. Se há dez anos houvesse uma cultura de responsabilidade no trânsito como a atual, talvez o Gabriel ainda estivesse vivo. Como disse acima, não sei se ele estava embriagado, mas isso não importa, porque responsabilidade ao volante envolve muitos outros aspectos. Alguém saindo às cinco da manhã duma festa pode estar com sono, mesmo sem ter bebido. Ou pode encontrar algum motorista que tenha bebido pelo caminho. Também pode ser assaltado ao entrar ou sair do carro e levar um tiro de graça. Pode se dar mal ao cruzar um sinal vermelho na tentativa de evitar ficar dando sopa de madrugada. Muita gente evita usar o carro à noite hoje por causa de todas essas possibilidades.

Para mim e para muitos dos meus amigos, todavia, o ponto de inflexão foi a tragédia do Gabriel. Se não salvou a mim, ele salvou a algum outro amigo querido. Neste aniversário de dez anos de sua morte, eu gostaria de agradecer ao Gabriel com este texto, por seguir beneficiando a todos à sua volta, mesmo sem estar presente.

Você faz muita falta, meu amigo!

Salvar

Salvar

Salvar

Salvar