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Curso online gratuito sobre jornalismo digital e interesse público

Estão abertas as inscrições para o curso Ferramentas digitais para o jornalismo de interesse público, oferecido pelo International Center For Journalists e do qual sou instrutor, junto o repórter especializado em transparência pública Fabiano Angélico.

O curso é gratuito, a distância e voltado a jornalistas e ativistas comprometidos com questões sociais. Fui aluno deste curso em 2012 e posso dizer que é muito produtivo — e, espero, se mantenha assim com a minha contribuição.

Segue o release:

Data limite para inscrições: 10 de maio de 2013 (Clique aqui para se inscrever)

Curso: 27 de maio a 28 de junho de 2013

O International Center for Journalists (ICFJ) está oferecendo um programa de treinamento de cinco semanas para 35 jornalistas brasileiros, patrocinado pela AT&T: “Ferramentas digitais para o jornalismo de interesse público”. O curso é focado no desenvolvimento de projetos multimídia sobre temas relacionados às principais dificuldades enfrentadas por comunidades pobres, como saneamento básico, educação, saúde pública e desastres naturais.

A versão brasileira do curso, ministrada em português, será dirigida por Fabiano Angélico, jornalista especializado em transparência pública, e por Marcelo Träsel, professor de Jornalismo Digital na PUCRS. Os participantes vão aprender sobre a importância das ferramentas digitais e mídias móveis, para fornecer informação de qualidade e respeitando princípios eticos em suas atividades diárias. O objetivo é a aquisição de habilidades permanentes em narrativas multimídia, que os auxiliarão em seu futuro trabalho jornalístico. Além disso, espera-se que muitos dos projetos e relatórios criados pelos participantes como atividades do currículo se tornem duradouros.

Algumas das técnicas a ser apresentadas aos participantes são o refinamento de buscas, o uso de mapas para descobrir informação, preparação de fotografias e vídeos para publicação na Web e criação de weblogs. O currículo é estruturado para encorajar os alunos a desenvolver um projeto multimídia capaz de causar um impacto positivo em sua comunidade. O curso também vai ensinar melhores práticas de uso de habilidades multimídia e plataformas durante coberturas jornalísticas.

Currículo

Semana 1: Jornalismo de interesse público
Semana 2: Internet – Uma ferramenta de serviço público
Semana 3: Ferramentas digitais
Semana 4: Como tornar seu projeto viável
Semana 5: Discussão de projetos em jornalismo de interesse público

Durante as duas últimas semanas do curso, os participantes serão convidados a propor um projeto voltado ao jornalismo de interesse público. Os ministrantes vão colaborar na definição do foco dos projetos e ajudar a definir metas e resultados concretos, assim como indicar as ferramentas digitais mais adequadas a cada projeto.

Os coordenadores vão selecionar até 15 dos participantes que apresentarem as melhores propostas e acompanhá-los em seu desenvolvimento por um mês após o término do curso. Seu papel será oferecer sugestões, críticas e encorajamento.

Em caso de dúvidas, entre em contato pelo email brasil@icfj.org. Para se inscrever, clique aqui.

Lojas físicas precisam se reciclar

Essa semana uma experiência nas lojas Colombo do Iguatemi cristalizaram uma certeza: não vale mais a pena comprar eletrônicos em lojas tradicionais. Estava procurando um Home Theater e lá um vendedor apresentou um modelo interessante. Após uma pesquisa no HT Fórum e nas resenhas da CNET, aquele modelo emergiu como o de melhor custo/benefício.

Porém, uma tomada de preços em lojas eletrônicas indicou que, embora o produto estivesse sendo vendido por um valor razoável na Colombo, o Submarino oferecia por cerca de R$ 300 a menos. Ao ser questionado sobre isso numa segunda visita, o vendedor da Colombo emendou a maior engambelação:

— No Submarino eu encontrei esse mesmo aparelho R$ 300 mais barato.
— É que essas lojas eletrônicas não têm de pagar aluguel, então podem fazer um preço menor.
— Sim, mas será que vocês podem chegar num valor parecido?
— Não tem como, mas comprando aqui o senhor tem mais segurança, caso dê algum problema. Basta vir até a loja. Pela Internet, se o produto tiver algum defeito, fica mais difícil resolver.
— Bom, aqui tem a vantagem de que não preciso esperar, posso levar hoje mesmo o aparelho…
— Na verdade, o senhor estaria recebendo ele amanhã em sua casa…

O diálogo é chocante. Primeiro, porque o vendedor tenta enganar o cliente apelando para o medo e a incerteza — e isso que o Submarino é uma empresa grande e de idoneidade reconhecida. A vontade era chamar o Procon para autuar a Colombo. Devem estar muito desesperados para usar esse tipo de recurso. Isto é, pelo jeito estão perdendo muito mercado para o comércio eletrônico. O que torna ainda mais estranho o fato de não oferecerem ao cliente uma das poucas vantagens, senão a única, que as lojas físicas mantém: sair de lá com o produto embaixo do braço. Francamente, por que alguém deveria comprar na Colombo, se é mais caro, tentam lhe enganar e ainda por cima é preciso lidar com toda a incomodação de uma entrega em domicílio?

No livro A Cauda Longa, Chris Anderson mostra como o comércio eletrônico está subvertendo o mercado de certos bens, sobretudo bens culturais, eletrônicos e eletrodomésticos. Ao eliminarem a necessidade de um espaço físico caro em um shopping center ou no centro da cidade, as lojas eletrônicas podem ainda colocar um catálogo bem mais amplo à disposição dos clientes. É claro, o cliente às vezes precisa se dar o trabalho de ler resenhas e analisar os manuais dos produtos para verificar se são o que está procurando, além de ter de esperar para recebê-los, mas a diminuição nos preços e o fato de não ter de agüentar esse tipo de papinho de vendedores compensa.

A grande questão talvez seja a confiança, no fim das contas. Muita gente, sobretudo quem não cresceu usando a Internet, desconfia de compras em que não pode lidar com algum ser humano ou não sabe onde pode ir para reclamar verbalmente. Outros acham que é perigoso dar o número do cartão de crédito nessas transações. Mas é tudo falta de costume, mesmo.

Em primeiro lugar, transações eletrônicas são bastante seguras, porque a maioria das lojas não guarda o número dos cartões em seus bancos de dados. Numa loja física, por outro lado, o vendedor sempre fica com um boleto cheio de informações do cliente e um cadastro com seus dados pessoais. A ausência de intermediação humana é mais confiável no fim das contas, até porque, como dizia Kevin Mitnick, “a engenharia social supera todas as tecnologias, inclusive firewalls”.

Quanto à confiabilidade à qual o vendedor se referiu, é besteira. Claro, devolver um produto a uma loja eletrônica é um pouco mais difícil do que o método tradicional, mas o resultado é o mesmo. Além disso, casos de lojas físicas inventando desculpas para não fazer trocas são abundantes. E o Código de Defesa do Consumidor também se aplica à Internet. Convém, no entanto, fazer compras em grandes redes, cujos sistemas são provavelmente mais seguros. Se pretende comprar um produto de um vendedor qualquer no Mercado Livre, vale mais a pena usar transferência bancária ou Sedex a cobrar. E fugir de negócios que pareçam bons demais — como, aliás, todos deveriam fazer também no comércio tradicional.

O futuro do jornalismo

No dia 15 de novembro participei de um debate na 54ª Feira do Livro de Porto Alegre, com Matías Molina e mediação de Marcelo Rech, diretor de produto do grupo RBS. As perguntas colocadas por Rech me fizeram pensar em qual seria o modelo mais adequado para o mercado jornalístico no futuro.

Abraçar o webjornalismo participativo

Os jornais não podem dar conta de todos os fatos considerados relevantes por seu público. O trabalho do jornalista é, sobretudo, decidir quais acontecimentos merecerão a honra de virar notícia e quais serão ignorados. Nos mídia tradicionais, isso ocorria porque o espaço no impresso e o tempo no rádio e televisão são limitados. Ou seja, era fisicamente impossível dar conta de tudo. Com a digitalização, descobriu-se que é economicamente impossível dar conta de tudo, porque não há força de trabalho que baste. Assim, continuamos enfrentando o desafio diário de eleger os assuntos mais importantes do ponto de vista do interesse público. O problema é que o cobertor acada ficando curto em todas as frentes. Nem as hard news mais essenciais para a humanidade ganham a atenção devida, nem o buraco no meio da rua é devidamente noticiado.

Uma possível solução para esse dilema é aproveitar melhor o interesse do público em participar do processo jornalístico. Hoje em dia quase todos os webjornais oferecem algum tipo de seção em que o leitor pode ter uma notícia sua publicada. O problema é que em geral esses espaços são separados das seções de “jornalismo sério” como leprosos na Idade Média. Assim, jornalistas e amadores acabam cobrindo as mesmas histórias dentro de um mesmo veículo, às vezes apenas com pontos de vista diferentes. Não precisa ser assim.

Os webjornais poderiam passar a integrar melhor as informações geradas pelo público a seu noticiário, sobretudo no que tange aos fatos mais simples, como buracos na rua, acidentes automobilísticos, incêndios, problemas em serviços públicos etc. Esse tipo de produção já é usado esporadicamente, como é o caso dos vídeos amadores feitos por pessoas que presenciaram um fato. Esse uso poderia ser aprofundado. Poderiam ser criadas equipes específicas para verificar as informações e posteriormente publicar as notícias produzidas por amadores junto às notícias produzidas por profissionais — tudo, é claro, devidamente sinalizado para o leitor. Um exemplo de como integrar repórteres profissionais e amadores vem da própria Zero Hora, com seu Leitor-Repórter. O Terra é outro portal que costuma usar bastante bem as imagens enviadas pelo público, freqüentemente publicando-as no espaço principal da capa. O melhor modelo até agora, porém, é o OhmyNews.

A vantagem dessa integração seria liberar os profissionais das pautas simples, para que eles possam se aprofundar nos assuntos mais relevantes ou demandantes em termos de horas de trabalho. Por outro lado, fatos que jamais ganhariam a esfera pública serão noticiados, arejando o noticiário e atendendo a interesses de mais grupos sociais. Nesse caso, porém, seria preciso encontrar uma forma de recompensar os amadores que doarem seu trabalho para a empresa de comunicação, caso contrário esse modelo se configuraria como exploração de trabalho não-remunerado. Uma idéia interessante é permitir acesso livre ao conteúdo fechado para os leitores que colaboram com o webjornal, ou mesmo dar-lhes assinaturas do jornal impresso.

Criar escassez

Faça a seguinte experiência: compre todos os jornais do dia em sua cidade e compare as notícias de alguma editoria. Digamos, política e mundo. Verifique a assinatura de cada uma das matérias semelhantes. Percebeu algo interessante? Sim, os textos são quase todos iguais, com alguma pequena variação entre parágrafos. Sim, as agências de notícias são as fontes principais da maioria deles. Por algum motivo, as diretorias de jornais acreditam que você deva pagar — ou gostariam que pagasse — para ler notícias que podem muito bem ser lidas de graça nos sites de agências como Reuters, AFP e Agência Brasil.

Nas últimas décadas o número de funcionários nas redações tem caído constantemente. Consoante a isso, os jornalistas mais antigos têm sido demitidos porque ganham mais, ou têm saído voluntariamente porque não agüentam o ritmo de trabalho imposto pela necessidade de “reengenharia” das empresas de comunicação. O resultado são equipes insuficientes e inexperientes e a queda na qualidade do jornalismo. Produzir coberturas sempre originais fica quase impossível. E, de qualquer modo, a maioria dos assuntos políticos e econômicos serão tratados de forma muito parecida porque a técnica e as fontes usadas pelos repórteres são as mesmas.

Uma solução para o financiamento da atividade jornalística pode estar em oferecer material mais atraente ao leitor e cobrar por ele. Os jornais digitais poderiam deixar a informação que pode ser encontrada em outros lugares (abundante) disponível a todos e investir maior esforço de reportagem em pautas inusitadas e exclusivas. Isto é, produzir informação escassa. E escassez, como qualquer estudante de primeiro semestre de Economia sabe, é uma das bases do valor de qualquer produto. Enfim, é preciso primeiro aumentar a qualidade das notícias, para depois querer cobrar por elas.

Adotar micropagamentos

Por que eu devo pagar pela assinatura do jornal inteiro, se apenas algumas partes dele me interessam? Por que não posso pagar apenas pelas notícias que leio? A resposta mais simples para isso é que não existe ainda um sistema de micropagamentos tão fácil de usar quanto receber o jornal impresso em casa todos os dias, ou fazer um pagamento anual via cartão de crédito para ter acesso a sua versão digital.

No entanto, o crowdfunding parece cada vez mais um caminho viável para o jornalismo. Modelos como o da BBC e do The Guardian mostram que o jornalismo produzido por fundações sem fins lucrativos em geral é de bastante qualidade. Um exemplo de que isso pode funcionar é o Back to Iraq, um jornal online dedicado a guerras no Oriente Médio produzido por Christopher Albritton, ex-repórter da AP, que levanta fundos com leitores interessados em uma cobertura diferenciada do assunto para atuar como correspondente. O projeto Spot.us está justamente testando esse modelo.

As possibilidades de aprofundamento da democracia que se abrem com os micropagamentos são enormes. Grupos que não têm espaço na mídia poderiam contratar repórteres para criar um espaço específico. Os pontos de vista na esfera pública poderiam se pluralizar. Ao mesmo tempo, repórteres poderiam escolher o tipo de assunto que querem cobrir. O ganho de eficiência com o meio digital poderia permitir aos jornalistas se reunirem em cooperativas de trabalho que realmente funcionem. Empresas jornalísticas poderiam aproveitar sua grande audiência propor pautas em seus veículos e convidar os leitores a contribuir para aquela reportagem específica, tangenciando o problema de financiamento de coberturas extensas que hoje aflige as redações.

Buscar novos modelos de publicidade

A publicidade na Web é muito mais barata do que a publicidade no jornal impresso, rádio ou televisão. Segundo os diretores de empresas de comunicação, o meio digital ainda é inviável economicamente. O anúncio digital é bem menos eficiente, ninguém clica de propósito em banners e a maioria das pessoas ou nem os percebe, ou sente-se agredida por eles quando se tornam muito invasivos. O problema é que banners são meras transposições do anúncio impresso para a Web. O formato de publicidade mais adequado para esse novo meio ainda não foi criado.

Ou melhor, talvez tenha sido: há cerca de cinco anos o Google aperfeiçoou os anúncios contextuais na forma do AdWords. Esse foi o último formato de publicidade consistente a surgir. Desde então, nem mesmo o Google consegue inventar maneiras de gerar faturamento com o conteúdo de que dispõe. Basta ver os resultados pífios obtidos pelo YouTube até agora. E estamos falando do veículo de mídia mais popular da Web. Isso significa que o formato mais adequado talvez tenha sido descoberto, mas não o modelo de negócios mais adequado.

Será necessário abandonar a idéia de anúncio e passar a adotar a idéia de patrocínio de longo prazo, de associar marcas a veículos de credibilidade, interessantes? Quem sabe mesmo patrocinar pautas específicas, assim como hoje as empresas patrocinam cadernos especiais? Organizações poderiam fazer doações para manter “cátedras” nas redações, postos específicos para a cobertura de determinados assuntos. O problema que se coloca, evidentemente, é o da promiscuidade entre interesses econômicos e jornalísticos. Um modelo desse tipo deveria ser acompanhado de meios de fiscalização do trabalho resultante.