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Jornalismo e micropagamentos

O pessoal do TechCrunch não acredita que os micropagamentos possam salvar o jornalismo. Em resumo, o colunista Robin Wauters não vê jeito de convencer uma audiência mimada por anos de informação gratuita a pagar por essa mercadoria, ainda que seja menos de um centavo por texto. Essa alternativa já foi defendida aqui mesmo neste blog, alguns meses atrás.

De lá para cá, o acompanhamento das discussões e projetos fez a idéia parecer cada vez menos viável. Em primeiro lugar, existe uma causa anterior à resistência das pessoas em pagar para ler notícias na Web: a má qualidade do jornalismo. Ninguém vai querer pagar pelo noticiário burocrático de hoje em dia. De fato, é a insipidez da imprensa que tem levado tantos leitores a mudar boa parte de seu consumo de informação de jornais para mídias sociais, como blogs, wikis e outros tipos de noticiários participativos ou colaborativos. Mídias sociais que já nasceram gratuitas e cujos autores têm nos anúncios contextuais e outros tipos de micropublicidade, ou mesmo doações, apenas uma fonte de renda extra.

É claro, a maioria dos canais de mídia social baseia seu conteúdo em reprocessamento do noticiário profissional. Caso esse noticiário passe a ser cobrado, o resultado mais provável é os blogueiros migrarem para agências de notícias governamentais e institucionais gratuitas — de onde a imprensa retira a maior parte das pautas de qualquer forma. Isso para não falar em sítios dedicados a redistribuir conteúdo fechado para toda a Web, como já acontece com músicas, vídeos, jogos eletrônicos e software.

O efeito mais grave do modelo de micropagamentos no jornalismo, porém, não seria apenas uma enorme decepção para os acionistas das empresas, mas o fim da reportagem séria. Como pergunta Greg Horowitz em uma coluna do blog Digitalists, o que os executivos vão fazer assim que tiverem informação mais detalhada do que nunca a respeito do retorno financeiro de cada notícia, de cada tipo de pauta, de cada editoria? Podemos apostar num futuro com micropagamentos e apenas manchetes sobre novos tipos de dieta, as dez melhores posições sexuais, futebol e pesquisas científicas mal compreendidas pelo repórter. Isso porque os assuntos realmente essenciais costumam ser chatos e, como qualquer pessoa que já tenha trabalhado em um webjornal ou portal sabe por experiência própria, têm audiência pífia.

Micropagamentos podem até salvar os jornais, portanto, mas dificilmente salvam o jornalismo. A resposta à crise deve ser procurada em algum outro lugar. Bons começos talvez sejam empresas de comunicação sem fins lucrativos, como a PBS americana e as britânicas BBC e Guardian. Ou projetos do tipo “repórter de aluguel”, como o Spot.us e blogs como Back to Iraq. O principal argumento de empresas, profissionais, acadêmicos e audiência para a necessidade de se salvar o jornalismo é o fato de a imprensa ser essencial para a manutenção da democracia. Pela primeira vez na história, existe uma tecnologia, um meio de produção, que está nas mãos dos cidadãos e permite a eles financiarem diretamente a atividade jornalística. Não seria o caso de deixar as empresas de comunicação seguirem o curso natural de nascimento, vida e morte no capitalismo e os cidadãos tomarem a reponsabilidade de manter a imprensa para si?