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Globo leva mais de 20 anos e três governos de esquerda para se desculpar pela metade

O jornal O Globo publicou, no final de agosto, um website especial sobre a história do jornal, no qual é possível consultar sua posição editorial em diversos eventos históricos. O principal deles é, claro, o golpe militar de 1964, sobre o qual as organizações Globo se viram obrigadas a publicar um editorial explicando e não exatamente se desculpando pelo apoio conferido aos militares rebeldes.

A ambiguidade da Globo pode ser percebida já no material histórico. Sobre a edição do dia 14 de março de 1964, dia seguinte ao comício em que João Goulart comemorou as medidas progressistas decretadas em 13 de março, a redação atual de O Globo entende que  “Jango pavimenta o caminho para a deposição”. O texto a respeito desta edição é bastante mais crítico do que o texto relacionado à comemoração do golpe, que dedica exatamente três frases a lamentar a ditadura e o posicionamento editorial do próprio Globo, mas lembra que o empossamento do presidente da Câmara dos Deputados como presidente da República respeitava a Constituição e que o regime de Castelo Branco foi uma “fase liberal” da ditadura — ou, como aparentemente preferem os herdeiros de Roberto Marinho, revolução. Aliás, o termo ditadura não é usado neste texto do memorial, nem mesmo 30 anos após o fim do regime.

O editorial específico sobre o 1º de abril usa, sim, o termo ditadura para se referir ao regime militar e até mesmo “golpe”, em lugar de “revolução”. No entanto, fracassa em mascarar a mentalidade patrimonialista da família Marinho e, principalmente, em se desculpar com o Brasil pelo apoio à deposição de um presidente eleito de forma legítima.

Em primeiro lugar, O Globo não consegue deixar de distribuir a culpa logo no início do texto, lembrando que Folha e Estadão, para ficar nos jornais ainda vivos, também apoiaram o golpe. A Folha, com efeito, não apenas colaborou com a tortura e morte de um número ignorado de heróis da luta contra a ditadura, através do apoio à Operação Bandeirantes, como até hoje a família Frias acha que o regime foi uma “ditabranda”. Entretanto, as ações coletivas não desculpam as decisões individuais, nem as ações de uma determinada instituição podem ser redimidas apelando para o comportamento do grupo. As organizações Globo podem ter colaborado menos ou mais do que outras empresas de comunicação com a ditadura, mas o fato é que, em 1964, decidiram contribuir para a deposição de um presidente democraticamente eleito. Ponto.

O editorial tenta deslegitimar o governo Jango, para justificar de alguma forma o apoio ao golpe. Um exemplo é o parágrafo a seguir:

Naqueles instantes, justificavam a intervenção dos militares pelo temor de um outro golpe, a ser desfechado pelo presidente João Goulart, com amplo apoio de sindicatos — Jango era criticado por tentar instalar uma “república sindical” — e de alguns segmentos das Forças Armadas.

O texto apresenta, ainda, trechos de um editorial assinado por Roberto Marinho em 1984, no aniversário de 20 anos da “revolução”, no qual o falecido patriarca das organizações Globo cita o “reconhecimento” do general Costa e Silva de que o golpe ocorrera “por exigência inelutável do povo brasileiro” e completa afirmando que “sem povo, não haveria revolução”, mas um golpe.

Todavia, o povo estava ao lado de Jango, como mostram pesquisas do Ibope realizadas na época. O presidente deposto tinha, de fato, índices melhores de aprovação popular do que Dilma Roussef tem nas pesquisas realizadas hoje. Marinho e o redator do editorial provavelmente não estão falando do povo em geral, é claro, mas da elite reacionária que foi às ruas na Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Seria mais ou menos como dar um golpe, hoje, em nome do Movimento Cansei!.

O editorial reivindica um raciocínio histórico, mas falha em apresentar uma contextualização adequada do “povo” a respeito do qual Marinho e os generais estão falando, quando defendem o golpe. Assim, o leitor fica com a impressão de que a cobertura do próprio O Globo, na época, foi equilibrada e imparcial, dando voz a todos os atores sociais. O apoio ao golpe teria sido apenas um momento de ingenuidade de Roberto Marinho, que confiou nas promessas de generais golpistas e foi traído. Pobre velhinho!

O editorial segue na tese da ingenuidade, com o parágrafo a seguir:

Em todas as encruzilhadas institucionais por que passou o país no período em que esteve à frente do jornal, Roberto Marinho sempre esteve ao lado da legalidade. Cobrou de Getúlio uma constituinte que institucionalizasse a Revolução de 30, foi contra o Estado Novo, apoiou com vigor a Constituição de 1946 e defendeu a posse de Juscelino Kubistchek em 1955, quando esta fora questionada por setores civis e militares.

Infelizmente, os editorialistas não explicam exatamente como apoiar a deposição de um presidente eleito pelo povo, com voto direto, é estar “ao lado da legalidade”. Mesmo partindo da premissa de que Jango fosse impopular e estivesse tomando medidas extremas, é preciso admitir que seu governo não carecia de legalidade, como sabia Leonel Brizola. Ilegais foram as atitudes dos militares e do Congresso. Os primeiros tentaram vetar a posse do vice-presidente após a renúncia de Jânio Quadros. Os deputados impuseram a adoção de um regime parlamentarista como condições para a posse do vice-presidente legítimo. O presidencialismo foi retomado por voto popular, através de um plebiscito.

A ilegalidade da qual se acusava Jango era a de ter modificado a forma de indenização dos donos de terras desapropriadas por decreto, porque essa mudança não fora aprovada pelo Congresso. Nem mesmo em 1964 isso seria estopim suficiente para um golpe. O motivo verdadeiro, como se pode depreender do próprio material de O Globo, era a aproximação de Jango com as camadas populares, em detrimento da elite. Os golpistas levantaram o fantasma de um possível golpe comunista para justificar… Um golpe reacionário!

Em suma, não existe lógica em se afirmar que Roberto Marinho era um amante da legalidade. O editorial, portanto, está equivocado neste ponto.

Finalmente, o texto lembra a anedota sobre o abrigo que Roberto Marinho dava a comunistas — na visão da junta militar — na redação de O Globo:

Durante a ditadura de 1964, sempre se posicionou com firmeza contra a perseguição a jornalistas de esquerda: como é notório, fez questão de abrigar muitos deles na redação do GLOBO. São muitos e conhecidos os depoimentos que dão conta de que ele fazia questão de acompanhar funcionários de O GLOBO chamados a depor: acompanhava-os pessoalmente para evitar que desaparecessem. Instado algumas vezes a dar a lista dos “comunistas” que trabalhavam no jornal, sempre se negou, de maneira desafiadora.

É interessante o fato de os próprios editorialistas contemporâneos terem usado aspas para se referir ao suposto comunismo dos jornalistas perseguidos pelo regime militar. O mais provável é que fossem apenas simpatizantes da esquerda, ou mesmo legalistas descontentes com o golpe militar apoiado por seu patrão. O parágrafo também permite depreender que a repressão nem mesmo sabia quais repórteres eram de esquerda, pois, caso contrário, Roberto Marinho não precisaria se negar “de maneira desafiadora” a fornecer uma lista dos mesmos.

O patriarca global não era burro. Pode-se imaginar que soubesse diferenciar um comunista de um simpatizante da esquerda comum. Também se pode imaginar que não podia simplesmente dispensar bons funcionários, ou criar na redação de O Globo um clima de perseguição, arriscando levar repórteres a se demitirem. Talvez Roberto Marinho estivesse defendendo seu negócio, não seus comunistas. Enfim, trata-se, aqui, de meras especulações. Talvez ele tenha realmente abrigado comunistas por altruísmo.

Mesmo sendo o caso, porém, é preciso lembrar que a decisão de apoiar o golpe causou a tortura e a morte de muitos jornalistas em todo o Brasil, que não podiam contar com o apadrinhamento do patriarca da Globo. Numa visão mais ampla, a defesa de um punhado de jornalistas foi uma gota d’água num oceano de abusos desencadeados pela posição do jornal. Roberto Marinho não deve, então, ser lembrado pelos comunistas que protegeu, mas por todos aqueles que ajudou, por cumplicidade com o regime, a matar e torturar.

A única afirmação correta no editorial inteiro vem na última frase: “A democracia é um valor absoluto. E, quando em risco, ela só pode ser salva por si mesma.” Infelizmente, após um festival de autocondescendência, fica a impressão de que o recado do editorial é o sintetizado pelo @hmilen: “Erramos, mas faríamos tudo de novo, porque estávamos certos.”

Em resumo, trata-se de uma autocrítica, mas sem nenhuma radicalidade, o que não deveria ser surpresa para ninguém. Não se pode esperar de uma organização como a Globo que investigue sua própria posição no mundo. Eu, todavia, posso fazê-lo, e é o que farei a seguir.

A Globo, na verdade, assim como todas as outras grandes empresas de comunicação do país, não tinham alternativa a não ser apoiar o golpe de 1964. Fazê-lo seria abdicar da própria existência. Para compreender essa afirmação, é preciso entender, primeiro, que as organizações jornalísticas, em nossa sociedade, não têm como função principal produzir notícias, mas, sim, vender anúncios nos espaços em branco entre essas notícias, ou nos intervalos comerciais. O jornalismo é praticamente uma externalidade positiva do processo de venda de audiência para agências de publicidade.

Durante o século XX, houve um esforço de profissionalização do jornalismo, cuja meta era evitar uma interferência excessiva do setor comercial sobre o setor editorial das organizações jornalísticas. Costuma-se chamar a esse esquema de “separação entre igreja e Estado”, nas redações. Em algumas empresas, o setor editorial é mais independente — essas costumam ser os jornais de referência –, noutras, o setor comercial tem maior capacidade de decisão sobre o noticiário. Porém, todas as empresas têm como objetivo principal a sua própria sobrevivência, isto é, a acumulação de capital. No momento em que essa sobrevivência é ameaçada, os princípios éticos e as normas deontológicas do jornalismo passam a valer tanto quanto um cartão de crédito no Planeta dos Macacos.

Poucas situações são mais perigosas para uma organização jornalística do que a crise causada por um golpe militar. Governantes com poderes discricionários e um exército para fazer valer seus decretos costumam simplesmente empastelar redações e fechar empresas. Que o diga Samuel Wainer, exilado pela ditadura, cujo Última Hora, favorável a Jango, foi deixado à míngua pelo governo militar e acabou vendido ao atual Grupo Folha da Manhã — em Porto Alegre, foi comprado pela família Sirotsky e se tornou Zero Hora. Assim, Roberto Marinho e outros proprietários de empresas de mídia tinham razões bastante fortes para temer o governo e prestar apoio ou, pelo menos, arrefecer críticas, mesmo se não compartilhassem — o que não era o caso — do ideário dos militares e elite golpistas.

Para além do temor a possíveis represálias da junta militar, havia a coincidência de ideologia entre os proprietários dos meios de comunicação de massa e a junta militar. Ambos faziam parte da elite patrimonialista brasileira, a quem as políticas trabalhistas de Jango ameaçavam. As empresas, no sistema capitalista, dependem da extração de mais-valia do trabalho de seus funcionários, isto é, simplificando, da diferença entre o tempo de produção de um determinado bem e do valor efetivamente pago ao trabalhador. Noutras palavras, os capitalistas vivem de roubar tempo de vida dos operários e vendê-lo aos consumidores. Assim, políticas que garantam melhores condições ou salários maiores aos trabalhadores, como as implementadas por Jango, são uma ameaça radical ao capitalismo.

Também deste ponto de vista, não haveria a menor chance de as Organizações Globo ou suas concorrentes apoiarem o presidente legítimo em detrimento dos golpistas. Não apenas a família Marinho estaria, neste caso, colocando em risco suas empresas, como estaria colocando em risco sua posição como capitalistas, como proprietários. O problema, entretanto, é a desproporcionalidade da reação. Em lugar de apoiar um compromisso da sociedade, através do qual as demandas da elite patrimonialista e dos trabalhadores pudessem ser equilibradas num meio-termo, a Globo preferiu apostar na manutenção do capitalismo selvagem no Brasil.

O debate a ser levantando, portanto, é até que ponto uma empresa jornalística deve ser considerada uma empresa como outra qualquer. Ao contrário de outras atividades, a comunicação de massa tem caráter formador, ou seja, não apenas reproduz um modo de organização social, mas também é um dos principais agentes de introdução de novos elementos no sistema. Estes elementos podem ser progressistas ou reacionários, podem favorecer a democracia, ou podem favorecer o capital. No Brasil, as grandes corporações jornalísticas têm sistematicamente falhado em defender a democracia contra o capital.

Não é que o jornalismo brasileiro seja ruim. Embora não se produza aqui o melhor noticiário do mundo, tampouco se pode tachar nossa imprensa de puramente áulica ou golpista. Expressões como “PIG” e “mídia golpista” são infantilidade e típicas de uma visão pouco sofisticada dos processos sociais. Em primeiro lugar, as organizações jornalísticas comerciais não são monolíticas, mas compostas por repórteres e outros funcionários com ideologias diversas, que competem entre si nas reuniões de pauta e políticas editoriais. Não se pode suprimir completamente essa disputa, sob pena de alienar bons jornalistas, essenciais para a produção de “furos” e reportagens investigativas que vão compor o maior ativo de qualquer jornal, revista ou emissora: a credibilidade. O funcionário competente é aquele que trabalha para si, não para a empresa. A consequência disso é que o funcionário só aceita trabalhar para uma determinada empresa enquanto seus interesses convergirem, ao menos na maior parte.

Nosso jornalismo é, assim, muito bom em fiscalizar desvios de verbas públicas, crimes eleitorais, atentados ao direito do consumidor, destruição do meio ambiente e, eventualmente, até mesmo em devassar a corrupção de um presidente e causar seu impeachment dentro dos parâmetros legais. Todavia, nada disso questiona o sistema em si e, por isso, é tolerado pelos proprietários da mídia e por outros capitalistas. Por um lado, essa fiscalização aumenta a eficiência do sistema, ao eliminar pontos de corrupção que emperram inclusive a vida dos próprios empresários. Por outro lado, causa a impressão de que os problemas são pontuais, limitando-se a algumas maçãs ruins no cesto, e não sistêmicos. Pode-se fazer bom jornalismo no Brasil, desde que a crítica não passe do limite do solo e atinja as raízes.

Daí a importância de se discutir a regulamentação da mídia no país. As empresas de comunicação, especialmente as concessionárias de faixas de rádio e televisão, têm seus negócios assentados sobre bens públicos. Jornais e revistas não são arrendatários de espectro eletromagnético, mas recebem subsídios e grande parte de sua receita vem de publicidade estatal. Portanto, ao fim e ao cabo, a sociedade é quem paga pela boa saúde desses negócios, que em contrapartida atendem, hoje, a muito poucas obrigações jurídicas.

Há duas saídas, não necessariamente excludentes entre si. A primeira seria aprimorar a regulamentação da mídia no Brasil, em especial a radiofusão, tendo em vista que as empresas são beneficiárias de recursos públicos, de modo a garantir sua colaboração na manutenção e aprimoramento da democracia.

A segunda seria incentivar ou criar empresas de comunicação sem fins lucrativos, independentes, tanto com recursos públicos, quanto privados. Essas empresas públicas ou beneficientes não precisam necessariamente competir com a mídia tradiconal, mas poderiam ajudar a preencher as lacunas na cobertura noticiosa e a fazer uma crítica social mais radical. O governo poderia investir diretamente ou através de publicidade em veículos como a Agência Pública, InfoAmazonia, Brasil de Fato, Repórter Brasil e outros, não apenas, como tem feito, em veículos ligados a partidos de esquerda, como Carta Maior e Sul 21, além dos falsamente jornalísticos “blogs progressistas” — meros instrumentos de propaganda do Partido dos Trabalhadores. Poderia haver, inclusive, incentivos ao cidadão e empresa que apoiasse projetos de jornalismo independente e comunitário, como há para quem destina parte dos impostos a projetos culturais e esportivos.

E, claro, os cidadãos precisam reconhecer a importância do jornalismo para a manutenção e avanço da democracia no Brasil e financiar esses projetos diretamente.

Algumas leituras a respeito desse debate, a partir das quais construí meu ponto de vista:

Digital disconnect, de Robert McChesney

Sociology of news, de Michael Schudson

Democracy and the news, de Herbert Gans

Sobre a televisão, de Pierre Bourdieu

O patrimonialismo brasileiro e os ataques ao vestibular

Mais um vestibular da UFRGS passou e mais uma vez há choro e ranger de dentes pela dificuldade das provas. É bastante ilustrativo ler o artigo de um pai indignado com o enunciado da redação, publicado em Zero Hora, e os respectivos comentários.

O tal pai indignado parece ver uma conspiração de intelectuais de esquerda para humilhar os estudantes gaúchos — os de direita ou “centro”, supõe-se, pois os de esquerda certamente teriam sido devidamente corrigidos politicamente em casa:

Para dividir as tarefas de eliminação, nos anos anteriores podem ter sido as questões de física, matemática, química ou todas elas juntas… Este ano, tudo indica que o destaque será a redação, mas tem que parecer politicamente correto, de preferência exaltando nossa nacionalidade, nossas origens lusófonas, quem sabe, a nossa língua!

O argumento principal deste pai é tão pedestre que nem merece uma refutação a sério. É mais interessante analisar o argumento subjacente não apenas a este, mas à maioria dos artigos de cidadãos indignados com a dificuldade dos vestibulares e outros concursos públicos (provas da OAB costumam ser um bom alvo): a de que as exigências acadêmicas deveriam se rebaixar à competência média dos candidatos. Exigir desempenho excelente se tornou algo análogo ao bullying.

É um sintoma da visão patrimonialista que a elite brasileira tem do Estado. O ingresso na universidade pública é visto pelas classes média e alta, cujos adultos com filhos em idade universitária em grande maioria foram alunos dessas instituições, como um tipo de cargo hereditário. É como um título de nobreza. O vestibular é apenas uma formalidade útil para manter o campus livre de egressos do ensino público.

As mesmas pessoas que lamentam a dificuldade do vestibular, muitas vezes, criticam o sistema de cotas. Conferir privilégios é antidemocrático, a isonomia está prevista na Constituição, trata-se de racismo reverso blablablá. Todavia, o desejo de que as provas do vestibular tenham a dificuldade “adequada” à capacidade dos candidatos é quase uma proposta de cotas. Cotas para “esforçados”. Ou seja, cotas para jovens de classe média ou alta que cumpriram direitinho seu papel social em boas escolas e bons cursinhos e boas famílias e como assim, Papai Noel não deixou presente?

As pessoas dizem a verdade quando afirmam criticar as cotas sem base em racismo. Brasileiros têm preconceito contra pobres de todas as cores e etnias. O problema das cotas não é tanto favorecer negros, índios, cafuzos e mamelucos — por acaso, a maioria dos pobres — quanto outorgar privilégios a pobres. Privilégios são para a elite. A ralé que fique com os brioches.

As cotas raciais têm por objetivo compensar justamente o desequilíbrio social causado pelo excesso de privilégios da elite, que se apossou do Estado desde a época das capitanias hereditárias e ainda mantém feudos em determinadas esferas. A compensação nem mesmo está sendo concedida às pessoas que sofreram mais diretamente com a exclusão, mas a seus filhos e netos. É uma forma de reequilibrar a sociedade, garantindo a igualdade de oportunidades para todos que a democracia exige.

Conceder uma vantagem aos setores excluídos econômica, social e politicamente é o contrário de adequar a dificuldade das provas à capacidade intelectual média. Passar a mão na cabeça dos estudantes esforçados não é democracia, é seu oposto. É tornar o social particular, o público, privado. Um cidadão que se preze deveria ter vergonha de sequer cogitar fazer com que as instituições sociais se adaptem a seus problemas pessoais. (De fato, na Alemanha descobri que os brasileiros são conhecidos por tentarem esse tipo de coisa, incorrendo no desprezo dos nativos.)

Num país onde não haja a visão do Estado como um patrimônio particular, as pessoas talvez pudessem perceber que alguns recursos são limitados e, no caso das vagas em universidades públicas, o interesse social recomenda sua distribuição aos mais intelectualmente competentes. Uma prova difícil seleciona as pessoas mais capazes de usar os recursos públicos para o desenvolvimento da sociedade. Ponto. Não importa sua origem social. Quem não tiver a competência exigida pode se esforçar mais e ter sucesso no ano seguinte. Isso é democracia, isso é igualdade de oportunidades.

O argumento mais perigoso presente nessas catilinárias contra o vestibular é o de que os pobres jovens se esforçam e acabam humilhados pelo fracasso. Os adultos que dizem essas coisas estão prestando um desserviço aos jovens.

Em primeiro lugar, a vida é dura. Descobrir que existem coisas além de nossa competência é muito saudável. De fato, algumas coisas estarão para sempre além da competência de algumas pessoas. No meu caso, por exemplo, jogar futebol e ficar milionário ainda jovem. Faz parte. Essa percepção incentiva o aprimoramento das próprias capacidades e a regulação das próprias expectativas.

Em segundo lugar, não há humilhação alguma em fracassar num concurso. É frustrante esforçar-se e não atingir os objetivos, mas também faz parte. Algumas pessoas têm mais talento para determinadas coisas e as obtém com mais facilidade. Bom para elas. O choque de ter o ego arrastado na lama por uma questão que outras pessoas parecem responder sem maiores dificuldades pode ser uma boa fonte de energia para nos esforçarmos mais. Algumas coisas realmente são muito difíceis e não podemos obtê-las por mais que desejemos e nos esforcemos. Triste, mas apenas os seus pais se importam. O cosmos não está nem aí. Melhor mudar de objetivos.

Em resumo, o vestibular é uma excelente oportunidade para os jovens se tornarem adultos. E os adultos não deveriam lhes negar essa oportunidade.