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Como checar fontes e identificar manipulações em redes sociais

Recentemente, a disputa pelo destino de um casario na rua Luciana de Abreu, em Porto Alegre, encontrou um desfecho no compromisso da construtora Goldsztein — parte do grupo Cyrela — em demolir apenas três dos seis imóveis, restaurar estes três preservados e ainda realizar uma doação de R$ 2 milhões para a conclusão das obras na Casa do Menino Jesus de Praga. Uma legítima solução salomônica, que provavelmente agradará à maioria dos descontentes com mais um caso de estupro urbanístico em Porto Alegre. Legal, não?

A Goldsztein, todavia, parece não ter achado suficiente a mídia espontânea garantida pela preservação de metade das casas e doação de milhões a uma instituição de caridade. Para reforçar sua disposição em deixar de degradar a paisagem urbana de Porto Alegre, resolveram degradar a paisagem virtual usando perfis falsos no Twitter para espalhar a notícia do acordo com o Ministério Público.

O astroturfing é uma prática a ser combatida porque causa a degeneração da esfera pública eletrônica criada pelas redes de computadores. Sabe como você não pode mais assistir a um vídeo incrível sem suspeitar que se trata de um viral criado para divulgar alguma marca, ou como você não pode mais ver um blogueiro elogiando uma marca, produto ou serviço sem se perguntar se está diante de um post pago? Esse cinismo generalizado é um efeito do abuso da confiança do leitor por parte de empresas e pessoas sem o menor respeito pelo patrimônio comum que é a Internet.

Agências de publicidade e assessorias de imprensa que se dizem especialistas ou fanáticos pela cultura digital, mas se valem do astroturfing, não são uma coisa nem outra. Primeiro, porque essa estratégia, como qualquer mentira, tem pernas curtas. Segundo, porque ninguém que ame a Internet contribuiria voluntariamente para sua degradação através de manipulações baratas. Já bastam os spammers, phishers e outros vermes à solta na rede. Se você é um anunciante, fique longe desse tipo de agência ou profissional.

Trata-se, além disso, de uma estratégia preguiçosa. Toma atalhos perigosos para disseminar informação e coloca em risco a imagem do cliente — que certamente não pagou pouco pelo serviço. Por exemplo, se o responsável por esta ação houvesse se dado o trabalho de me conhecer apenas superficialmente, saberia que não é boa ideia tentar esse tipo de coisa por perto. De fato, uma das principais motivações para este artigo é, provavelmente, ter me ofendido por me julgarem um alvo adequado.

Todo mundo precisa comer e pagar a conta do bar, mas profissionais que coadunam com o astroturfing estão tornando o mercado de trabalho muito mais miserável para si e para todos os outros. São o equivalente de fura-greves. Ninguém está exigindo de você que cure o câncer, mas que pelo menos não ajude a disseminá-lo. A única exigência do cosmos é que tenhamos responsabilidade; não é muita coisa e quem não consegue nem isso deveria ser punido com a ignomínia.

Como forma de contribuir para o fim do astroturfing, sock-puppetry e outros flagelos, aí embaixo está um tutorial com dicas para identificar perfis falsos em redes sociais, seguidas pelos passo-a-passo de minha investigação a respeito dos perfis usados por alguma agência de publicidade por delegação da Goldsztein. Recomendo acionar o modo de tela cheia, para ver melhor as imagens, ou baixar os slides em seu computador.

ATUALIZAÇÃO: Entrei em contato com Cláudio Goldsztein, fundador da agência Embrace e filho de Sérgio Goldsztein, para verificar as relações entre as duas firmas. Conforme o empresário, os perfis falsos usados para disseminar mensagens favoráveis à construtora homônima não são de responsabilidade da Embrace. Tampouco há qualquer pessoa chamada Sofia Martins no quadro de funcionários da Embrace ou da Goldsztein. O publicitário supõe que os perfis falsos podem ter sido criados por corretores de imóveis com interesse em negociar o empreendimento, independentemente. O perfil @luciana_verdade no Twitter, porém, é gerenciado pela Embrace.

TCE diz que anúncios da prefeitura de Canoas em blogs de jornalistas gaúchos eram irregulares

Não há como identificar a intenção de fornecer acesso facilitado ao sítio da Prefeitura Municipal de Canoas por meio dos banners veiculados nos sítios privados de Felipe Vieira, Ricardo Orlandini, Rogério Mendelski, Érico Valduga, Diego Casagrande e Fernando Albrecht. Não há prova de que os referidos banners possuíam o adequado meio eletrônico de acesso, inexistindo qualquer formalização dessa propriedade técnica.

O trecho acima é do processo número 5127-02.00/08-2 do Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Sul, que corre no gabinete do conselheiro Algir Lorenzon. Além dos jornalistas citados acima, Políbio Braga também está envolvido no processo.

Dançando no limite do bom gosto

Nos últimos dias, a matéria Homem que esfaqueou três em mercado de SP foi contido meia hora após ataque, assinada por Afonso Benites e publicada na Folha de São Paulo, vem causando a indignação de muitos leitores. O motivo é o trecho a seguir:

José Marcelo de Araújo, 27, percorreu quase todas as seções do Extra, no centro, ameaçando as pessoas. Empunhava uma faca de churrasco, que furtou no próprio local (Tramontina, modelo Ultracorte, pacote com quatro tamanhos: R$ 53,90).

Era dia de promoção –a Quarta Extra (até 30% de desconto em frutas e legumes). A loja estava cheia.

Os ofendidos pelo texto de Benites reclamam do “merchandising” ou “anúncios” em meio à história de um assassinato — por meio de outras palavras, acusam a Folha de tentar vender produtos se aproveitando da morte de um cidadão inocente.

Lamento, mas confundir a citação a produtos neste texto com publicidade é caso de extrema má-vontade ou de analfabetismo funcional. (Dica aos mais afoitos: publicidade só acontece quando alguém recebe dinheiro ou vantagens para publicar alguma coisa.)

A citação a produtos neste caso é apenas um elemento narrativo que visa dar maior vivacidade ao texto e ajudar o leitor a criar uma imagem mais clara do cenário onde o crime ocorreu. Ao ler o trecho, também estranhei, mas entendi a referência a informações banais sobre os produtos como um artifício que, em contraste com a gravidade da situação, acaba evidenciando a banalidade da violência no Brasil.

As frases “Era dia de promoção –a Quarta Extra (até 30% de desconto em frutas e legumes). A loja estava cheia.” oferecem um subtexto importante, em conjunto com o “meia hora após ataque” do título: nenhum cidadão presente tomou qualquer atitude para evitar as agressões. Poderiam, sei lá, ter juntado 20 pessoas, ido até o setor de limpeza para se armar com vassouras e contido o assassino à força. Fica implícita uma crítica à atual falta de senso de comunidade e responsabilidade pelo bem-estar do próximo.

É uma boa peça narrativa e uma reportagem inteligente no sentido de inserir crítica social sem explicitar uma opinião. Mostra, em vez de dizer. Um jornalista com essa habilidade é coisa rara no mercado.

Os motivos pelos quais a matéria merece ser criticada são outros e estão apenas tangencialmente ligados à questão da citação aos produtos.

A meu ver, o problema é a espetacularização do assassinato, do crime. Nada de novo aí. A imprensa brasileira sempre gastou muita tinta para transformar bandidos em personagens, sem demonstrar a menor sensibilidade quanto às vítimas ou suas famílias, obrigadas a ver seus algozes como protagonistas de romances detetivescos — inclusive, parece haver uma relação direta entre abjeção do crime e a qualidade do texto do repórter destacado para cobri-lo.

Um amigo que trabalhou em jornais populares do Rio de Janeiro nos anos 1980 e 1990 sempre conta como os traficantes se tornaram mais violentos quando perceberam que, com isso, ganhavam as capas dos jornais. Assim como aparecer no jornal como fonte é sinal de relevância para um médico ou empresário, é sinal de relevância para um bandido, frente a seus pares e comunidade. Estar na mídia indica poder.

O espaço destinado às histórias policiais é muito maior do que a importância dos fatos a partir dos quais foram produzidas. Os crimes são muito menos comuns do que um leitor de jornais poderia supor analisando a quantidade de páginas gastas para relatá-los. Salvo por uma ou outra matéria de utilidade pública, conhecer os detalhes de crimes não traz benefício algum ao cidadão — exceto, talvez, saciar alguma pulsão sadomasoquista.

A narrativa de Benites torna a história do assassinato no supermercado muito mais chocante do que pareceria num texto burocrático, como estamos acostumados a ler. A espetacularização da criminalidade ficou muito mais evidente neste caso e talvez tenha sido esse o fator que causou tanta indignação. As pessoas ofendidas pelas referências ao modelo das facas e à promoção do supermercado podem estar ofendidas, na verdade, com o fato de a Folha estar ganhando audiência e, portanto, dinheiro com o sangue alheio. Essa é uma indignação que faz sentido.

A meu ver, a sociedade não perderia nada se as histórias policiais fossem simplesmente banidas dos noticiários. No caso de permaneceram, seria de bom tom procurar não dramatizá-las, apresentando as informações da maneira mais burocrática possível ao público. Essa, porém, é a uma decisão comercial dos executivos das empresas jornalísticas. Sangue dá audiência e audiência dá lucro. Como cidadãos, o que podemos fazer é deixar de ler essas matérias e apontar nossa repulsa sempre que houver oportunidade.

Benites é um funcionário e foi ordenado por seu chefe a relatar o crime no supermercado. Tomou a decisão de fazer isso com toda competência. Poderia ter pensado nas famílias das vítimas ou no impacto social de seu trabalho e escrito um texto menos sensacional? É claro que poderia. O repórter inseriu publicidade em uma história de provável grande audiência? É óbvio que não. O que aconteceu, então? Acho que Benites foi apenas uma peça mais eficiente do que o normal no sistema da mídia. Devemos condená-lo? Sei lá.

Estelionato de atenção

Capa do UOL

No dia 22 de março, Dia da Água, a capa do UOL amanheceu pintada pelo horrendo tom de azul da reprodução acima. O portal pertencente aos grupos Folha e Abril foi um dos veículos escolhidos para uma ação de marketing da Ambev, cujo objetivo era divulgar um tal Movimento CYAN — daí o tom de azul característico. Outros jornais a aderir foram o Globo e o Estadão, sendo que estes também pintaram a capa das edições impressas.

Não é de hoje que os grandes jornais brasileiros começaram a vender suas capas. Todo mundo sabe que a indústria do jornalismo está periclitante e é preciso ganhar dinheiro como for. Faz parte. Vivemos em uma sociedade em que o jornalismo está submetido à lógica do capital. Não é o ideal, mas ainda é melhor do que uma sociedade sem jornalismo.

Pessoalmente, considero que esse tipo de prática deprecia a credibilidade do veículo frente aos leitores — um perigo, visto que a credibilidade é o principal ativo das empresas de comunicação. A longo prazo, pode se mostrar um tiro no pé entregar ao assinante um jornal com metade de uma capa tamanho standard tomada por ofertas de computadores parcelados em 12 vezes. Porém, não condeno a decisão de pintar as capas de azul.

O que realmente me incomoda é ver uma ousadia como essa ser imposta pelo setor comercial, em vez de partir da redação. Os recursos hídricos são um tema de grande importância, que raramente ganha espaço no noticiário. Receber um jornal com a capa totalmente tingida ou acessar um portal e encontrar tudo azul causa um choque no leitor, que vai parar por um segundo para refletir sobre a mensagem. Nesse caso, porém, o leitor não encontrou uma justificativa para o impacto da capa. Nenhum dos veículos produziu reportagens especiais sobre o problema de garantir água potável para a humanidade. A maioria apenas publicou fotos de rios bucólicos e boletins da ONU.

É um desperdício lamentável. Seria bom ver as empresas de comunicação brasileiras se unindo para conscientizar a população sobre esse tema, produzindo reportagens especiais aprofundadas. Por melhor que seja o material informativo oferecido pela Ambev em sua campanha, não há necessariamente um compromisso com o interesse público. A empresa convida especialistas para dar palestras sobre os recursos hídricos, propõe aos leitores ações para economizar água, mas a problematização fica na superfície. Não se discute a sustentabilidade do modelo econômico atual com maior profundidade — e nem se deve esperar isso de uma campanha publicitária.

Para piorar, os leitores do UOL pensam que a pintura azul foi uma ação editorial. Ou seja, o conteúdo produzido pelo departamento de marketing da Ambev, para o bem ou para o mal, será considerado pela audiência um conteúdo de responsabilidade do Grupo Folha.

Outro exemplo recente foi uma sobrecapa veiculada no jornal Correio do Povo de 31 de março. A peça publicitária tinha projeto gráfico idêntico ao do jornal, inclusive com elementos como a previsão do tempo e o logotipo da Rede Record, e a manchete era “Mestre Mamzumba chega ao Brasil”. De cara, o conjunto da manchete e foto com um africano evidentemente estereotipado me indicaram haver algo errado, mas levei algum tempo até encontrar o aviso de “informe publicitário” no material. Trata-se de uma campanha da Agência Escala para as lojas Colombo, que já vem se desenrolando há mais tempo.

Sobrecapa publicitária do Correio

A confusão ao deparar com a sobrecapa do Correio do Povo me fez perder tempo investigando seu significado. Se soubesse ser um anúncio, teria descartado à primeira vista e seguiria lendo as notícias do dia. O anúncio frustrou minhas expectativas enquanto leitor, pois toda a técnica jornalística desenvolvida ao longo de mais de um século de profissionalização tem como objetivo facilitar a leitura e torná-la mais rápida. Sequestrar a atenção dessa forma pode fazer todo sentido do ponto de vista da publicidade, mas é um erro do ponto de vista jornalístico.

Nos dois anúncios comentados aqui, o leitor é interpelado pela peça gráfica e mobiliza sua atenção — o que Seth Godin chama de marketing de interrupção –, mas esse esforço não é recompensado por um conteúdo jornalístico de qualidade. A meu ver, trata-se de um verdadeiro estelionato de atenção.

O futuro do jornalismo

No dia 15 de novembro participei de um debate na 54ª Feira do Livro de Porto Alegre, com Matías Molina e mediação de Marcelo Rech, diretor de produto do grupo RBS. As perguntas colocadas por Rech me fizeram pensar em qual seria o modelo mais adequado para o mercado jornalístico no futuro.

Abraçar o webjornalismo participativo

Os jornais não podem dar conta de todos os fatos considerados relevantes por seu público. O trabalho do jornalista é, sobretudo, decidir quais acontecimentos merecerão a honra de virar notícia e quais serão ignorados. Nos mídia tradicionais, isso ocorria porque o espaço no impresso e o tempo no rádio e televisão são limitados. Ou seja, era fisicamente impossível dar conta de tudo. Com a digitalização, descobriu-se que é economicamente impossível dar conta de tudo, porque não há força de trabalho que baste. Assim, continuamos enfrentando o desafio diário de eleger os assuntos mais importantes do ponto de vista do interesse público. O problema é que o cobertor acada ficando curto em todas as frentes. Nem as hard news mais essenciais para a humanidade ganham a atenção devida, nem o buraco no meio da rua é devidamente noticiado.

Uma possível solução para esse dilema é aproveitar melhor o interesse do público em participar do processo jornalístico. Hoje em dia quase todos os webjornais oferecem algum tipo de seção em que o leitor pode ter uma notícia sua publicada. O problema é que em geral esses espaços são separados das seções de “jornalismo sério” como leprosos na Idade Média. Assim, jornalistas e amadores acabam cobrindo as mesmas histórias dentro de um mesmo veículo, às vezes apenas com pontos de vista diferentes. Não precisa ser assim.

Os webjornais poderiam passar a integrar melhor as informações geradas pelo público a seu noticiário, sobretudo no que tange aos fatos mais simples, como buracos na rua, acidentes automobilísticos, incêndios, problemas em serviços públicos etc. Esse tipo de produção já é usado esporadicamente, como é o caso dos vídeos amadores feitos por pessoas que presenciaram um fato. Esse uso poderia ser aprofundado. Poderiam ser criadas equipes específicas para verificar as informações e posteriormente publicar as notícias produzidas por amadores junto às notícias produzidas por profissionais — tudo, é claro, devidamente sinalizado para o leitor. Um exemplo de como integrar repórteres profissionais e amadores vem da própria Zero Hora, com seu Leitor-Repórter. O Terra é outro portal que costuma usar bastante bem as imagens enviadas pelo público, freqüentemente publicando-as no espaço principal da capa. O melhor modelo até agora, porém, é o OhmyNews.

A vantagem dessa integração seria liberar os profissionais das pautas simples, para que eles possam se aprofundar nos assuntos mais relevantes ou demandantes em termos de horas de trabalho. Por outro lado, fatos que jamais ganhariam a esfera pública serão noticiados, arejando o noticiário e atendendo a interesses de mais grupos sociais. Nesse caso, porém, seria preciso encontrar uma forma de recompensar os amadores que doarem seu trabalho para a empresa de comunicação, caso contrário esse modelo se configuraria como exploração de trabalho não-remunerado. Uma idéia interessante é permitir acesso livre ao conteúdo fechado para os leitores que colaboram com o webjornal, ou mesmo dar-lhes assinaturas do jornal impresso.

Criar escassez

Faça a seguinte experiência: compre todos os jornais do dia em sua cidade e compare as notícias de alguma editoria. Digamos, política e mundo. Verifique a assinatura de cada uma das matérias semelhantes. Percebeu algo interessante? Sim, os textos são quase todos iguais, com alguma pequena variação entre parágrafos. Sim, as agências de notícias são as fontes principais da maioria deles. Por algum motivo, as diretorias de jornais acreditam que você deva pagar — ou gostariam que pagasse — para ler notícias que podem muito bem ser lidas de graça nos sites de agências como Reuters, AFP e Agência Brasil.

Nas últimas décadas o número de funcionários nas redações tem caído constantemente. Consoante a isso, os jornalistas mais antigos têm sido demitidos porque ganham mais, ou têm saído voluntariamente porque não agüentam o ritmo de trabalho imposto pela necessidade de “reengenharia” das empresas de comunicação. O resultado são equipes insuficientes e inexperientes e a queda na qualidade do jornalismo. Produzir coberturas sempre originais fica quase impossível. E, de qualquer modo, a maioria dos assuntos políticos e econômicos serão tratados de forma muito parecida porque a técnica e as fontes usadas pelos repórteres são as mesmas.

Uma solução para o financiamento da atividade jornalística pode estar em oferecer material mais atraente ao leitor e cobrar por ele. Os jornais digitais poderiam deixar a informação que pode ser encontrada em outros lugares (abundante) disponível a todos e investir maior esforço de reportagem em pautas inusitadas e exclusivas. Isto é, produzir informação escassa. E escassez, como qualquer estudante de primeiro semestre de Economia sabe, é uma das bases do valor de qualquer produto. Enfim, é preciso primeiro aumentar a qualidade das notícias, para depois querer cobrar por elas.

Adotar micropagamentos

Por que eu devo pagar pela assinatura do jornal inteiro, se apenas algumas partes dele me interessam? Por que não posso pagar apenas pelas notícias que leio? A resposta mais simples para isso é que não existe ainda um sistema de micropagamentos tão fácil de usar quanto receber o jornal impresso em casa todos os dias, ou fazer um pagamento anual via cartão de crédito para ter acesso a sua versão digital.

No entanto, o crowdfunding parece cada vez mais um caminho viável para o jornalismo. Modelos como o da BBC e do The Guardian mostram que o jornalismo produzido por fundações sem fins lucrativos em geral é de bastante qualidade. Um exemplo de que isso pode funcionar é o Back to Iraq, um jornal online dedicado a guerras no Oriente Médio produzido por Christopher Albritton, ex-repórter da AP, que levanta fundos com leitores interessados em uma cobertura diferenciada do assunto para atuar como correspondente. O projeto Spot.us está justamente testando esse modelo.

As possibilidades de aprofundamento da democracia que se abrem com os micropagamentos são enormes. Grupos que não têm espaço na mídia poderiam contratar repórteres para criar um espaço específico. Os pontos de vista na esfera pública poderiam se pluralizar. Ao mesmo tempo, repórteres poderiam escolher o tipo de assunto que querem cobrir. O ganho de eficiência com o meio digital poderia permitir aos jornalistas se reunirem em cooperativas de trabalho que realmente funcionem. Empresas jornalísticas poderiam aproveitar sua grande audiência propor pautas em seus veículos e convidar os leitores a contribuir para aquela reportagem específica, tangenciando o problema de financiamento de coberturas extensas que hoje aflige as redações.

Buscar novos modelos de publicidade

A publicidade na Web é muito mais barata do que a publicidade no jornal impresso, rádio ou televisão. Segundo os diretores de empresas de comunicação, o meio digital ainda é inviável economicamente. O anúncio digital é bem menos eficiente, ninguém clica de propósito em banners e a maioria das pessoas ou nem os percebe, ou sente-se agredida por eles quando se tornam muito invasivos. O problema é que banners são meras transposições do anúncio impresso para a Web. O formato de publicidade mais adequado para esse novo meio ainda não foi criado.

Ou melhor, talvez tenha sido: há cerca de cinco anos o Google aperfeiçoou os anúncios contextuais na forma do AdWords. Esse foi o último formato de publicidade consistente a surgir. Desde então, nem mesmo o Google consegue inventar maneiras de gerar faturamento com o conteúdo de que dispõe. Basta ver os resultados pífios obtidos pelo YouTube até agora. E estamos falando do veículo de mídia mais popular da Web. Isso significa que o formato mais adequado talvez tenha sido descoberto, mas não o modelo de negócios mais adequado.

Será necessário abandonar a idéia de anúncio e passar a adotar a idéia de patrocínio de longo prazo, de associar marcas a veículos de credibilidade, interessantes? Quem sabe mesmo patrocinar pautas específicas, assim como hoje as empresas patrocinam cadernos especiais? Organizações poderiam fazer doações para manter “cátedras” nas redações, postos específicos para a cobertura de determinados assuntos. O problema que se coloca, evidentemente, é o da promiscuidade entre interesses econômicos e jornalísticos. Um modelo desse tipo deveria ser acompanhado de meios de fiscalização do trabalho resultante.