Arquivo da tag: sociedade

O patrimonialismo brasileiro e os ataques ao vestibular

Mais um vestibular da UFRGS passou e mais uma vez há choro e ranger de dentes pela dificuldade das provas. É bastante ilustrativo ler o artigo de um pai indignado com o enunciado da redação, publicado em Zero Hora, e os respectivos comentários.

O tal pai indignado parece ver uma conspiração de intelectuais de esquerda para humilhar os estudantes gaúchos — os de direita ou “centro”, supõe-se, pois os de esquerda certamente teriam sido devidamente corrigidos politicamente em casa:

Para dividir as tarefas de eliminação, nos anos anteriores podem ter sido as questões de física, matemática, química ou todas elas juntas… Este ano, tudo indica que o destaque será a redação, mas tem que parecer politicamente correto, de preferência exaltando nossa nacionalidade, nossas origens lusófonas, quem sabe, a nossa língua!

O argumento principal deste pai é tão pedestre que nem merece uma refutação a sério. É mais interessante analisar o argumento subjacente não apenas a este, mas à maioria dos artigos de cidadãos indignados com a dificuldade dos vestibulares e outros concursos públicos (provas da OAB costumam ser um bom alvo): a de que as exigências acadêmicas deveriam se rebaixar à competência média dos candidatos. Exigir desempenho excelente se tornou algo análogo ao bullying.

É um sintoma da visão patrimonialista que a elite brasileira tem do Estado. O ingresso na universidade pública é visto pelas classes média e alta, cujos adultos com filhos em idade universitária em grande maioria foram alunos dessas instituições, como um tipo de cargo hereditário. É como um título de nobreza. O vestibular é apenas uma formalidade útil para manter o campus livre de egressos do ensino público.

As mesmas pessoas que lamentam a dificuldade do vestibular, muitas vezes, criticam o sistema de cotas. Conferir privilégios é antidemocrático, a isonomia está prevista na Constituição, trata-se de racismo reverso blablablá. Todavia, o desejo de que as provas do vestibular tenham a dificuldade “adequada” à capacidade dos candidatos é quase uma proposta de cotas. Cotas para “esforçados”. Ou seja, cotas para jovens de classe média ou alta que cumpriram direitinho seu papel social em boas escolas e bons cursinhos e boas famílias e como assim, Papai Noel não deixou presente?

As pessoas dizem a verdade quando afirmam criticar as cotas sem base em racismo. Brasileiros têm preconceito contra pobres de todas as cores e etnias. O problema das cotas não é tanto favorecer negros, índios, cafuzos e mamelucos — por acaso, a maioria dos pobres — quanto outorgar privilégios a pobres. Privilégios são para a elite. A ralé que fique com os brioches.

As cotas raciais têm por objetivo compensar justamente o desequilíbrio social causado pelo excesso de privilégios da elite, que se apossou do Estado desde a época das capitanias hereditárias e ainda mantém feudos em determinadas esferas. A compensação nem mesmo está sendo concedida às pessoas que sofreram mais diretamente com a exclusão, mas a seus filhos e netos. É uma forma de reequilibrar a sociedade, garantindo a igualdade de oportunidades para todos que a democracia exige.

Conceder uma vantagem aos setores excluídos econômica, social e politicamente é o contrário de adequar a dificuldade das provas à capacidade intelectual média. Passar a mão na cabeça dos estudantes esforçados não é democracia, é seu oposto. É tornar o social particular, o público, privado. Um cidadão que se preze deveria ter vergonha de sequer cogitar fazer com que as instituições sociais se adaptem a seus problemas pessoais. (De fato, na Alemanha descobri que os brasileiros são conhecidos por tentarem esse tipo de coisa, incorrendo no desprezo dos nativos.)

Num país onde não haja a visão do Estado como um patrimônio particular, as pessoas talvez pudessem perceber que alguns recursos são limitados e, no caso das vagas em universidades públicas, o interesse social recomenda sua distribuição aos mais intelectualmente competentes. Uma prova difícil seleciona as pessoas mais capazes de usar os recursos públicos para o desenvolvimento da sociedade. Ponto. Não importa sua origem social. Quem não tiver a competência exigida pode se esforçar mais e ter sucesso no ano seguinte. Isso é democracia, isso é igualdade de oportunidades.

O argumento mais perigoso presente nessas catilinárias contra o vestibular é o de que os pobres jovens se esforçam e acabam humilhados pelo fracasso. Os adultos que dizem essas coisas estão prestando um desserviço aos jovens.

Em primeiro lugar, a vida é dura. Descobrir que existem coisas além de nossa competência é muito saudável. De fato, algumas coisas estarão para sempre além da competência de algumas pessoas. No meu caso, por exemplo, jogar futebol e ficar milionário ainda jovem. Faz parte. Essa percepção incentiva o aprimoramento das próprias capacidades e a regulação das próprias expectativas.

Em segundo lugar, não há humilhação alguma em fracassar num concurso. É frustrante esforçar-se e não atingir os objetivos, mas também faz parte. Algumas pessoas têm mais talento para determinadas coisas e as obtém com mais facilidade. Bom para elas. O choque de ter o ego arrastado na lama por uma questão que outras pessoas parecem responder sem maiores dificuldades pode ser uma boa fonte de energia para nos esforçarmos mais. Algumas coisas realmente são muito difíceis e não podemos obtê-las por mais que desejemos e nos esforcemos. Triste, mas apenas os seus pais se importam. O cosmos não está nem aí. Melhor mudar de objetivos.

Em resumo, o vestibular é uma excelente oportunidade para os jovens se tornarem adultos. E os adultos não deveriam lhes negar essa oportunidade.

Fechando as portas da percepção

A New Yorker publicou uma profunda reportagem sobre o fenômeno do uso de neuroampliadores por pessoas saudáveis, o que está sendo chamado nos Estados Unidos de “neurologia cosmética”. São medicamentos desenvolvidos para o tratamento de diversos problemas mentais e cognitivos, como a Ritalina e o Provigil, cujos efeitos em indivíduos que não precisam tomá-los incluem algum tipo de estímulo dos processos intelectuais. Estudantes, programadores, executivos e outros profissionais têm usado essas drogas para ganhar uma vantagem competitiva, ou ao menos algumas horas a mais por noite para concluir tarefas no fim do prazo.

É irônico serem chamados de neuroampliadores em inglês, já que esses medicamentos em geral produzem o efeito de fixar a atenção do usuário por mais tempo do que o normal. Ou seja, seu efeito é de restringir o foco de percepção do mundo e assim a criatividade e a inteligência. Trata-se de muletas para desempenhar tarefas repetitivas e de pouca exigência intelectual. De fato, essa é a opinião de vários médicos entrevistados. Um deles diz estar preocupado com o resultado da proporção de estudantes e jovens trabalhadores usando essas drogas atualmente, porque podemos estar criando uma “geração de contadores muito atentos”. Outro parece decepcionado com a banalidade dos f’ãs de neuroampliadores, observando que em geral eles servem apenas para pessoas sem uma boa idéia conseguirem levar adiante algum trabalho medíocre qualquer. Na conclusão, Margaret Talbot escreve:

Every era, it seems, has its own defining drug. Neuroenhancers are perfectly suited for the anxiety of white-collar competition in a floundering economy. And they have a synergistic relationship with our multiplying digital technologies: the more gadgets we own, the more distracted we become, and the more we need help in order to focus. The experience that neuroenhancement offers is not, for the most part, about opening the doors of perception, or about breaking the bonds of the self, or about experiencing a surge of genius. It’s about squeezing out an extra few hours to finish those sales figures when you’d really rather collapse into bed; getting a B instead of a B-minus on the final exam in a lecture class where you spent half your time texting; cramming for the G.R.E.s at night, because the information-industry job you got after college turned out to be deadening. Neuroenhancers don’t offer freedom. Rather, they facilitate a pinched, unromantic, grindingly efficient form of productivity.

É quase de uma robotização voluntária da consciência. Enquanto nas décadas de 1960 e 1970 o esforço da sociedade se dava no sentido de abrir as portas da percepção a novas idéias, novas formas de vivenciar o mundo, hoje a busca é pelo fechamento da consciência às perturbações exteriores. Em nossa cultura, a contradição, o erro, o irracional são cada vez mais considerados meras perturbações e cada vez menos oportunidades de criação, de invenção. Um mundo de zumbis reprodutores de dados enclausurados em escritórios anódinos é a imagem de futuro que se apresenta em nossa cultura.

Essa imagem lembra um pouco o Admirável Mundo Novo distópico de Aldous Huxley, cujos habitantes arrastavam suas existências sob o efeito de drogas variadas, cada uma voltada para um tipo específico de tarefa. Se, como a reportagem sugere, os neuroampliadores acabarem por ser aceitos pelos órgãos sanitários e se tornarem apenas mais um suplemento para o organismo, a pressão social e talvez mesmo a exigência administrativa em usá-los criará uma casta de gente medíocre destinada somente a fazer a economia girar. A desvalorização da formação cultural já está produzindo um fenômeno semelhante, hoje. Há gente eficiente sobrando, mas funcionários capazes de ter idéias são cada vez mais raros — e mais bem pagos do que os outros.

O desejo de aumentar a eficiência dos processos mentais é um desejo de combater nossas características orgânicas, o desgaste fisiológico, o cansaço, a degradação. Pessoalmente, considero patético e infantilóide o desespero em regular e dominar o orgânico, expresso na popularização da cirurgia plástica, nos regimes nutricionais e esportivos, na moda e agora na disseminação dos neuroampliadores. No fundo, é uma tentativa de negar a própria mortalidade, um tipo de narcisismo em que o indivíduo se considera importante demais para decair e desaparecer da existência. “A única coisa que não muda é que tudo muda”, ensinava Heráclito. O mundo é movimento. Uma sociedade que não erra, não fracassa, também não evolui.