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Lançamento do livro “Interações em rede”

Na próxima quarta-feira, às 18h30, na Faculdade de Comunicação Social da UFRGS, será lançado o livro Interações em rede, organizado pelo mestre Alex Primo. Na ocasião, haverá uma mesa redonda com os autores, na qual eu apresentarei meu artigo “Toda resistência é fútil: o jornalismo, da inteligência coletiva  à inteligência artificial”.

O livro reúne artigos de alunos e ex-alunos do Laboratório de Interação Mediada por Computador da Fabico/UFRGS, capitaneado pelo Alex, que foi meu orientador de mestrado. É uma comemoração pelos dez anos do LIMC, assim como o Seminário de Interação Mediada por Computador, evento que será fechado pela mesa-redonda.

Segue o resumo do meu artigo:

O predomínio do pensamento tecnológico trouxe o mundo ocidental à era da cibercultura, caracterizada pela busca de soluções técnicas nas mais diversas instâncias da experiência humana: políticas, econômicas, existenciais e deontológicas, entre outras. Neste contexto, a noção de inteligência coletiva viabilizada pela técnica, especialmente a telemática, tem sido cada vez mais indicada e usada como instrumento de resolução de problemas sociais. Por outro lado, a automação, inicialmente circunscrita a processos mecânicos, tem sido aplicada nos últimos anos a atividades intelectuais, com o desenvolvimento de robôs e inteligências artificiais capazes de coletar e analisar informação. A prática profissional do jornalismo não escapa destas circunstâncias, adotando diversas técnicas de captação de inteligência coletiva e repórteres-robôs para atrair audiência e compensar a escassez de mão-de-obra nas redações, como forma de combater a crise econômica causada pela digitalização do noticiário. Estas soluções podem ser compreendidas como uma introdução de tendências pós-humanistas na prática do jornalismo, movimento que vai de encontro ao caráter humanista da profissão.

Em breve, o livro estará disponível no catálogo da Editora Sulina, por R$ 35.

Não basta investir no jornalismo digital, é preciso pensar digitalmente

A leitura do release sobre o lançamento do novo aplicativo de Zero Hora para o iPad é tão chocante que me levou a desenvolver, abaixo, um pequeno exercício de descontrução. Em poucas frases, o autor — ou autores — do texto conseguiu a façanha de cristalizar os equívocos que levaram o jornalismo digital ao estado de penúria econômica e intelectual de hoje em dia. Vamos analisar o texto por pontos:

1. O título do release é “Zero Hora inova no aplicativo para iPad”, com a linha de apoio “A versão 2.0 apresenta notícias com a cara do jornal impresso e atualizadas em tempo real” e a cartola “Papel digital”. Estes elementos já demonstram a perspectiva da diretoria de Zero Hora e do Grupo RBS em relação ao jornalismo contemporâneo e às mídias móveis em particular: tablets, leitores eletrônicos e smartphones são veículos para o jornalismo impresso sem papel. São, em duas palavras, “papel digital”. A primeira implicação importante disso é que o conteúdo produzido para mídias móveis não está submetido ao website de Zero Hora, mas ao jornal impresso. Por conseguinte, as decisões editoriais e comerciais devem ser condicionadas às necessidades do jornalismo impresso, não do jornalismo digital, muito embora aplicativos para iPad sejam, evidentemente, baseados em código binário. Não apenas isso, como inovador no jornalismo, mais de 20 anos após o lançamento do primeiro webjornal, é ter “cara de jornal impresso”. Não custa lembrar que era exatamente essa a abordagem da imprensa em 1995, quando os webjornais apenas republicavam, às vezes até em PDF, como fazia o Correio do Povo, as notícias do jornal impresso. Essa proposta revela uma nostalgia dos “bons tempos” das redações esfumaçadas, máquinas de escrever, paicas, linotipo, aquele imaginário todo de A Montanha dos Sete Abutres.

2. A primeira frase do release é “A leitura de Zero Hora no iPad está mais próxima da profundidade do jornal impresso e da instantaneidade e dos recursos multimídia dos meios digitais”. De saída, o texto já se filia ao grupo de defensores do argumento indefensável de que o suporte papel, em si, favorece a redação de notícias mais profundas e gera leituras mais aprofundadas por parte do público. Não é necessário nem mesmo comparar o noticiário impresso e o digital para descartar esse tipo de determinismo tecnológico. É bastante improvável que a simples passagem de um texto do papel para a tela prejudique a reportagem ou a compreensão do leitor. Sim, o computador desafia nossa atenção com diversas distrações, como alertas de correio eletrônico, redes sociais etc., como descreve Nicholas Carr em Geração Superficial. Porém, é discutível o quanto essas distrações prejudicam a compreensão de notícias e, de qualquer modo, não é como se os leitores de jornais impressos se isolassem em câmaras à prova de som para ler o noticiário todas as manhãs. Ler jornal no ônibus, ou com filhos gritando em volta, ou tentando ao mesmo tempo comer granola e beber café é muito diferente de ler um webjornal com alertas do Facebook agredindo os ouvidos? Tablets e smartphones em geral permitem a execução de apenas um aplicativo por vez, o que de fato evita distrações e aproxima a experiência à da leitura em papel. É um aspecto a favor do argumento exposto no release, mas ainda assim, longe do cerne da questão. Se há ou houve diferença de qualidade no jornalismo produzido para a Web em comparação ao jornalismo produzido para veiculação em papel, é porque poucas redações investiram seriamente nas operações digitais durante as duas últimas décadas. O “online” sempre foi o patinho feio, muitas vezes limitado à republicação de conteúdo de outras plataformas e sem verba própria para reportagem. Esperar qualidade de uma redação sem recursos financeiros e humanos é como esperar feijões de uma planta deixada sem água e sem sol — e culpar a planta quando ela não produz nenhum grão! Em termos estritamente técnicos, as plataformas digitais permitem maior profundidade, uma vez que os textos podem ser tão longos quanto necessário e complementados por multimídia e referências a material de apoio em outros websites. Se essas características foram pouco aproveitadas, a culpa certamente não é da Web, mas das escolhas administrativas e editoriais de empresas jornalísticas.

3. Em seguida, o release informa que “O novo aplicativo 2.0 de ZH, lançado neste domingo, une a identidade visual do papel com a visão editorial e a atualização constante de zerohora.com”. Aqui, pode-se perceber a total ausência de embasamento da defesa do jornalismo impresso como bastião da qualidade pelo argumento tecnológico. A principal característica do veículo impresso adicionada ao aplicativo para iPad de Zero Hora não são repórteres experientes, não é mais dinheiro para reportagens de fôlego, não é um processo editorial mais cuidadoso, mas… A identidade visual! Na visão de Zero Hora, portanto, o que confere profundidade ao noticiário não é o talento dos repórteres e editores, ou as boas condições materiais e institucionais para a realização de reportagens, mas a identidade visual. Essa frase corrobora o ponto número 2, comprovando que, para o autor do release, a qualidade do jornalismo está ligada a seus aspectos materiais, ou seja, ao suporte. Ironicamente, o texto destaca a “visão editorial” de Zerohora.com, junto da “atualização constante”. Noutras palavras, identidade visual parece ser um fator mais importante do que visão editorial na produção de bom jornalismo, para o autor do release.

4. O restante do texto se dedica a listar as funcionalidades do aplicativo para iPad de Zero Hora. Apenas uma é diretamente ligada ao jornal impresso: a possibilidade de ler uma reprodução digital do jornal em papel. Por outro lado, a possibilidade de “ver os assuntos mais relevantes do momento na Capa e Contracapa do aplicativo, com a velocidade do site do jornal” parece se relacionar com os assuntos em pauta na edição impressa do dia, mas, na verdade, essa Capa e Contracapa espelham as manchetes de Zerohora.com. Temos aqui um defeito de design, pois aplicativos podem até ter capas, mas certamente não podem ter contracapas, ao menos no iPad, que não tem telas dos dois lados. É claro, pode ser apenas uma forma lúdica de fazer uma ponte entre o jornal impresso e sua reencarnação em tablet. Seria uma forma de agradar aos leitores mais conservadores, mas às custas de um design mais centrado nas características do suporte digital, cujas funcionalidades nativas, aliás, são as mais profusas e interessantes: previsão do clima em tempo real, personalização editorial, vídeos e galerias de fotos. Exceto pelas mesmas fontes usadas na versão impressa e a leitura da edição impressa, não há nenhuma outra característica do jornal impresso no aplicativo. Inclusive, a arquitetura de informação não se afasta muito da arquitetura padrão de webjornais. De modo que, mesmo aceitando como verdadeiros os argumentos dos defensores do impresso, este aplicativo não cumpriria as promessas de maior profundidade, porque claramente segue uma estética mais próxima da Web. Existem aplicativos que permitem uma maior aproximação com a experiência de leitura em papel, como o Readability, mas estes são completamente diferentes do aplicativo de ZH.

Conclusão

Zero Hora parece estar sofrendo de certa esquizofrenia institucional. Por um lado, realizam investimentos na área digital e, inclusive, desenvolveram uma das melhores operações digitais da imprensa brasileira. Excluindo os jornais nacionais, como Folha, Estadão, Globo e Valor, talvez a RBS produza o melhor jornalismo digital do Brasil. Por outro lado, a instituição se vê obrigada a prestar tributo ao jornal impresso. Não tenho conhecimento algum da intimidade da RBS, mas arriscaria o palpite de que há gestores ligados ao impresso tentando defender enquanto for possível seu feudo e, com alguma sorte, seguir no trono após a inevitável migração para o digital e abandono do papel. É o que tem ocorrido na maioria das redações mundo afora. O principal sintoma disso é o aparente contrasenso da produção de conteúdo para mídias móveis estar subordinada ao corpo editorial do jornal impresso, e não da redação digital, em grande parte dos casos.

O problema é que essa doença pode acabar matando o jornalismo, porque a maior parte dos repórteres, editores e gestores das redações voltadas a veículos impressos passou as duas últimas décadas fingindo não ver ou, pior, hostilizando abertamente as mídias digitais. Serão mesmo as pessoas certas para capitanear a substituição da celulose pelos bits? A mentalidade retrógrada dos defensores do papel tende a ignorar as possibilidades e constrangimentos das mídias digitais, ao tentar enquadrá-las nos modelos obsoletos de jornalismo. Com isso, perde-se duplamente: as liberdades do código binário são subaproveitadas e as qualidades do jornalismo impresso acabam sacrificadas.

É claro, há sempre o risco de se tratar meramente de um release infeliz divulgado por Zero Hora. Por outro lado, como ele segue publicado, sem alterações, o leitor se sente obrigado a inferir que essa seja realmente a opinião da empresa — um release é, afinal, a voz de uma instituição. As críticas acima também servem para quase todos as organizações jornalísticas que contam com veículos impressos e suas versões digitais. Esse exemplo foi usado porque estava à mão.

É um problema de cultura profissional, não desta ou daquela empresa especificamente. A própria BBC teve dificuldades em construir uma redação voltada para o digital, mesmo contando, potencialmente, com os melhores recursos humanos que o jornalismo tem a oferecer, no mundo inteiro. A única saída encontrada pela BBC para superar os obstáculos da cultura profissional foi removê-los, ou seja, demitir os funcionários refratários à atualização das rotinas produtivas. Nem toda redação pode se dar a esse luxo.

Mas nem toda a nostalgia do mundo vai evitar o fim dos jornais impressos, simplesmente porque o papel é uma tecnologia superada para distribuir notícias. Ainda se presta muito bem a jornalismo investigativo, cultural, opinião e infografia, mas, para o feijão-com-arroz das hard news, os suportes digitais são muito mais adequados. Hoje, ainda se pode vencer algumas batalhas cedendo à nostalgia do papel no design de produtos digitais, mas duvido que seja possível vencer a guerra com essa estratégia.

Produção e Colaboração no Jornalismo Digital

Livro da Rede JorTecEstá na praça o segundo livro acadêmico do qual participo com um capítulo. No caso, o trabalho “apuração distribuída como técnica de webjornalismo participativo“, apresentado no 7º Encontro da SBPjor, em 2009. Segue o texto de divulgação:

Rede JorTec lança seu primeiro livro

Rede de Pesquisa Aplicada em Jornalismo e Tecnologias Digitais – JorTec – lança seu primeiro livro, Produção e Colaboração no Jornalismo Digital, que reúne o trabalho de 16 pesquisadores de 10 distintas instituições de ensino e pesquisa.

O livro busca evidenciar através dos Núcleos de Pesquisa da Rede JorTec (Tecnologia, Interface, Narrativas e Colaboração) algumas das mais importantes questões para a prática contemporânea do jornalismo digital, como a integração qualificada do leitor no processo de produção jornalístico, possibilidades de interatividade, narrativa e visualização do conteúdo, diferenciações do processo de produção, modelos de negócio e possíveis tecnologias aplicadas ao jornalismo digital.

O lançamento ocorre no 8º Encontro da Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (8º SBPJor), no dia 9 de novembro, terça-feira, às 20 horas, em São Luis, Maranhão.

Oficializada pela SBPJor em janeiro de 2009, a Rede JorTec vem sendo articulada desde o início de 2007 com o intuito de produzir pesquisa aplicada visando à experimentação e criação de inovações tecnológicas digitais nos processos de captação, produção, empacotamento, transmissão e distribuição de conteúdos jornalísticos nas convergentes plataformas comunicacionais. Para isso, conta com pesquisadores de diversas regiões e universidades brasileiras.

Livro: Produção e Colaboração no Jornalismo Digital

Autores:
Alvaro Bufarah Junior, Ana Maria Brambilla, Ben-Hur Correia, Carla Schwingel, Carlos d’Andréa, Carlos Eduardo Franciscato, Carlos A. Zanotti, Dijna Andrade Torres, Diólia de Carvalho Graziano, Fernando Firmino da Silva, Gabriele Maciel, Getúlio Cajé dos Santos, Jorge Rocha, Marcelo Träsel, Raquel Ritter Longhi, Walter Teixeira Lima Junior

Organizadores:

Carla Schwingel e Carlos A. Zanotti

Editora Insular
Preço: R$ 35,00

Elogio da linearidade

A Zero Hora publicou há algumas semanas matéria especial sobre os desafios colocados pelos jovens de hoje para as escolas. Sem grandes novidades: pedagogos reconhecem a defasagem entre o modelo de educação atual e as habilidades desenvolvidas pelas crianças através do uso de computadores, telefones móveis, jogos eletrônicos e outros elementos da cibercultura. Dizem que é preciso mudar a forma de ensinar e um entrevistado, Paulo Al-Assal, vem com aquela arenga de sempre sobre a escola matar a criatividade e tudo o mais.

Os problemas todos são pendurados na conta dos educadores, considerados anacrônicos, mas a meu ver a questão é um pouco mais complexa. Em primeiro lugar, é preciso admitir que, de fato, muitos professores desconhecem as ferramentas de comunicação e entretenimento digitais e passam longe das redes sociais. Em geral esse professor passa a ser desvalorizado, considerado um dinossauro.

Cabe perguntar-se, no entanto: realmente queremos um sistema educacional reconstruído com base na personalidade da nova geração?

A meu ver, a resposta é que devemos fazer adequações no sistema educacional, mas não reinventá-lo completamente. Isso porque o formato de aula do século XIX desenvolve uma habilidade importante e não-inata nos seres humanos: a linearidade. Como diz o pesquisador André Lemos, ser hipertextual é a configuração padrão do ser humano, a linearidade é que exige treino.

E treino duro. Deixada à própria sorte, nossa mente passa de imediato a realizar livre-associações. Os alunos atuais não se dispersam porque a Internet os acostumou a começar uma busca procurando por dados sobre a extensão do Rio Amazonas e terminar tendo frio na espinha ao ler notícias sobre pessoas atacadas pelo candiru. Eles se dispersam porque nossa mente é dispersiva e a Internet é uma reprodução técnica desse caráter hipertextual do pensamento.

Um livro didático oferece poucas chances de dispersão, pois, em geral, é organizado em uma sequência lógica da menor para a maior concentração de conhecimento. As boas e velhas enciclopédias impressas já ofereciam risco mais alto de dispersão, pois ao lado do verbete sobre o Rio Amazonas podiam aparecer ilustrações de guerreiras sensuais montadas a cavalo, ou uma remissão a Manaus, ao Ciclo da Borracha e daí para Deus sabe onde. Ainda assim, a necessidade de folhear ou buscar outro volume na estante dava ao estudante tempo para se dar conta da dispersão e retornar ao trabalho. Na Web, basta um clique e imediatamente se está em uma nova página, com novos links e novos caminhos abertos.

É como o fluxo do pensamento. A mente à solta deriva para todo lado. Saímos correndo atrás da primeira linha raciocínio que aparece, assim como os cachorros correm latindo atrás dos carros passando na rua.

Diversas culturas criaram tecnologias cognitivas para evitar essa dispersão ao longo da história. No Oriente, surgiu a meditação, cujo principal objetivo é justo ensinar a mente a ficar quieta em seu lugar enquanto os carros passam. No Mediterrâneo, surgiu a retórica, com suas técnicas para organizar o discurso de forma linear. Na Europa, o códex deu uma base material à linearidade do pensamento, com a colocação organizada das idéias página após página numerada.

O homem se esforça há milênios para tentar ser linear. A linearidade só perdeu prestígio no século XX, sob ataque das artes e da teoria literária. No momento em que os seres humanos, através da indústria cultural, sobretudo da televisão, passaram a ter  contato diário com diferentes culturas — por mais enquadrado numa determinada visão de mundo que fosse esse contato –, perceberam estar sob o domínio um discurso monolítico, de um imaginário do progresso, e sentiram-se prisioneiros. Veio o Maio de 1968, veio a contracultura americana, veio o punk e diversos outros movimentos de libertação dos discursos. Veio o Pós-modernismo e o elogio da hipertextualidade, da polissemia. Esquecemos o valor da linearidade.

O mundo ficou muito melhor com o fim da repressão dos discursos totalitários, não se pode negar. Há muito mais liberdade hoje do que há um século. Mas convém não jogar o bebê fora com a água do banho. É bom abraçar os avanços proporcionados pelo reconhecimento do caráter hipertextual da mente, mas sem deixar de lado os benefícios da linearidade.

Infelizmente, não há outro espaço social para desenvolver a linearidade que não seja a escola. Portanto, a escola sempre foi e sempre será castradora. Os alunos não têm culpa de se sentirem desconfortáveis com a linearidade das aulas. É mesmo uma violência obrigar-se a focar a atenção por horas a fio todos os dias — e, antes de ser adulto, é difícil enxergar o valor de sacrificar-se em nome de um objetivo. Foucault dizia, não à toa, que a educação é “deixar-se foder pelo social” — o que não significa uma recomendação para deixar a escola por parte do filósofo francês, mas apenas uma provocação para incentivar os espíritos a buscarem autonomia. Os adultos, porém, não têm desculpa, exceto a imaturidade, para não ver os benefícios proporcionados pela escola.

Imaturidade é a chave aqui. A mente imatura detesta a linearidade. É a mente combatida, até certo ponto, pela meditação, e, às últimas consequências, pela filosofia. Pode ser difícil reconhecer o valor do treinamento na linearidade quando passamos a atuar no mundo adulto, mas ele é essencial para a maior parte das situações profissionais. O problema das técnicas cognitivas é que os novos comportamentos se tornam anteriores às ações e, assim, passamos a confundir os padrões de pensamento com nosso próprio eu. Ou seja, quem passou pela escola acredita que sempre foi linear, porque se vê capaz de focalizar a atenção numa tarefa com grande competência. Pelo retrovisor, a escola parece ensinar apenas aquilo que já sabíamos o tempo inteiro.

Nossa cultura vem se tornando cada vez mais imatura. A juventude domina o imaginário social. A medicina luta contra o envelhecimento. A moda faz os adultos parecerem adolescentes. A falta de compromisso é sinônimo de liberdade. Infelizmente, os aspectos mais negativos da juventude parecem ser os mais valorizados. Em vez da abertura da mente de principiante de que falava Shunryu Suzuki e da seriedade ao brincar de que falava Nietzsche, temos o narcisismo típico da infância. Narcisismo que leva a considerar o individual sempre superior ao social. Neste caso, leva à conclusão de que a escola precisa se adaptar aos estudantes, não os estudantes à escola.

A escola tem de mudar suas práticas — em alguns casos, mudar muito — sem abandonar, no entanto, os princípios fundamentais. É saudável que os alunos possam questionar os professores e que estes não se vejam mais como detentores únicos do conhecimento; é saudável que os professores deixem de ser figuras de autoridade para se tornar facilitadores do processo de aprendizagem; é saudável adotar as ferramentas oferecidas pelas tecnologias de computação e informação na sala de aula. Mas também é saudável manter ao menos um reduto da tradição ocidental de raciocínio linear, que bem ou mal nos trouxe até um momento histórico no qual as condições de vida são suficientes para passarmos a questionar a própria idéia de progresso histórico.