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Reflexões sobre o Dia do Trabalho

Nunca li O Capital. Não tenho uma trajetória clássica na esquerda, embora participe da política. De fato, o mais próximo que já cheguei do sentimento de participar de uma greve foi pelo tédio durante uma paralisação na universidade federal onde cursei a graduação. Noutras palavras: não tenho conhecimento teórico ou prático em lutas trabalhistas. Qualquer membro iniciante da Federação Anarquista Gaúcha tem mais méritos acumulados nessa área. Nem mesmo acho que participaria ativamente duma greve, porque sou pacato e preguiçoso. No máximo, faria o que vou fazer a seguir: tentar sintetizar, através da escrita, a posição do proletário no mundo atual. Cada um contribui conforme sua capacidade e vontade. Mas quem arrisca sua integridade física para garantir mais direitos aos trabalhadores merece muito, muito mais respeito do que quem, como eu, fica só torcendo da arquibancada.

A situação

1. Crescendo nos anos 1990, pude testemunhar o momento em que o capital venceu a guerra pelos corações e mentes. Depois da queda do Muro de Berlim e da desintegração da União Soviética, a esquerda entrou em parafuso e a direita aproveitou para levar adiante o projeto neoliberal de reinventar o trabalhador como um empreendedor de si mesmo. Planos de Demissão Voluntária foram aceitos em troca de recursos para comprar carrocinhas de pipoca. Funcionários se tornaram colaboradores. Vestir a camiseta se tornou mais importante do que ser competente. O trabalho deixou de ser trabalho para se tornar um veículo de satisfação pessoal, em vez duma relação comercial entre patrão e empregado. Exigir dinheiro pelas horas vendidas ao patrão passou a ser considerado filistinismo, porque todos estavam lá para materializar seus sonhos e fazer amigos, não para produzir mais-valia. Os benefícios foram trocados por jogos eletrônicos e comida grátis à disposição no escritório. O trabalho deixou de ser um tipo de imposto sobre a vida, para se tornar a vida em si mesma. As classes deixaram de existir e a luta entre elas perdeu o sentido.

2. Com o fim da história e do sentido da luta de classes, a política representativa se tornou um debate entre variações do ideário neoliberal. Enxergar uma oposição, ou mesmo uma separação, entre capital e trabalho se tornou um anacronismo.

3. Todavia, esta oposição seguiu existindo e segue sendo combustível para a ação direta e movimentos políticos, embora eles em geral tenham sido ignorados na esfera pública.

4. A era industrial terminou com o século XX, mas o trabalho não se adaptou à economia do conhecimento. O modelo de trabalho e os direitos seguem sendo mais ou menos os mesmos conquistados pelas demandas colocadas no final do século XIX.

5. Enquanto a informática aumenta a produtividade do trabalho, o capital se faz de João-sem-braço, aproveitando a síndrome de Estocolmo que se abateu sobre os trabalhadores nos anos 1990. Não apenas novos direitos não são concedidos, como há retrocessos em vários aspectos.

6. O aumento da produtividade e riqueza geral acelera o consumo dos recursos naturais e o envenenamento do planeta. O capital garante que a tecnologia vai dar conta de neutralizar os efeitos da poluição e do estupro da Terra. Adota medidas cosméticas e as chama de “planos de sustentabilidade”.

7. A colonização da educação pela ideologia neoliberal arranca do ensino o seu caráter humanista e torna o cumprimento de metas a principal preocupação. A eficiência toma o lugar do incentivo ao espírito crítico como o valor máximo nas escolas.

8. As propostas políticas radicais são tachadas de jurássicas e abandonadas em favor de metas objetivas e pontuais. Em vez de marchar em conjunto contra o sistema, marcha-se em separado pelo direito de fumar maconha, andar de bicicleta nas ruas ou vestir roupas ínfimas.

9. A Internet favorece a fragmentação da classe trabalhadora em grupos dedicados a causas específicas e erode a agenda pública comum. As bolhas ideológicas criadas pelas redes sociais se atomizam cada vez mais. A rede perde seu caráter anárquico e se torna a cada dia mais tomada pelo mercantilismo.

10. A defasagem entre a produtividade do sistema e a distribuição dos resultados, aliada ao comportamento cada vez mais extravagante e ridículo dos privilegiados, sacode a classe trabalhadora e ela parece acordar de seu sono após duas décadas. O fracasso na solução dos problemas ambientais leva uma nova geração a duvidar do capital e questionar as bases do sistema.

A solução

É preciso imaginar e debater na esfera pública um novo modelo de trabalho, adequado à economia do conhecimento e ao conhecimento atual sobre o equilíbrio ecológico do planeta.

Qualquer mudança depende, todavia, de uma revolução na própria mentalidade dos trabalhadores. É preciso abandonar o desejo de acumular dinheiro em favor do desejo de dispor do próprio tempo.

O capital mente ao vender a imagem de roupas de grife, carros possantes, casas imensas, férias no exterior e clubes do vinho como luxo. O verdadeiro luxo é dispor de tempo livre para se dedicar à família, à amizade e ao desenvolvimento de atividades de interesse pessoal.

Luxo é ter tempo de cuidar dos próprios filhos, cozinhar a própria comida — produzi-la, se possível! –, deslocar-se a pé, dormir o suficiente, participar dos esportes e da cultura, observar uma religião, criar laços comunitários e dedicar-se à política local num clima de parrésia. Luxo é ter tempo para o cuidado de si.

Devemos abandonar o progresso econômico como objetivo principal do trabalho e substituí-lo pela diminuição progressiva das horas trabalhadas. A meta deve ser garantir a maior quantidade de tempo livre possível, não o maior saldo bancário possível.

Trabalhar oito horas por dia não é mais necessário para manter o mundo funcionando. Dê um passeio no shopping center e observe as vitrines. Quantos dos produtos à venda você consideraria lixo desnecessário? O capitalismo precisa constantemente inventar produtos ridículos e absurdos, do ponto de vista prático, para manter a rotação do sistema em alta velocidade. Não porque alguém tenha um fim específico em mente, mas porque a velocidade se tornou um hábito e, como é preciso arranjar uma desculpa para manter as pessoas trabalhando, inventam-se produtos e serviços absolutamente desnecessários. Os trabalhadores, por hábito, aceitam a farsa.

O problema desta farsa é que, além de tornar a existência humana miserável para a maioria da população, ela aprofunda os problemas ambientais da Terra.

Diminuir as horas trabalhadas tornaria a raça humana um pouco mais sustentável não somente pela redução do uso de insumos na produção de lixo destinado à Fast Shop e lojas de R$ 1,99, com todos os seus subprodutos poluentes, mas também porque adotar hábitos pessoais sustentáveis exige muito tempo livre.

Frequentar feiras orgânicas exige tempo livre. Cozinhar em casa, para evitar alimentos processados, exige tempo livre. Andar a pé ou pedalar em vez de tirar o carro da garagem exige tempo livre. Separar o lixo exige tempo livre. Compostagem caseira exige tempo livre. Lavar fraldas de pano exige tempo livre. Fabricar a própria cerveja exige tempo livre. Plantar as próprias verduras exige tempo livre.

Hoje em dia, apenas os privilegiados podem adotar hábitos sustentáveis, porque têm os recursos financeiros para dispor de seu tempo. Este benefício deveria ser estendido a todos no planeta.

A meu ver, esta é a luta que vale a pena hoje em dia. Este poderia ser o novo significado do primeiro de maio.

Ou vocês nunca perceberam como sempre se vê na televisão reportagens sobre o sujeito que era corretor da bolsa e encontrou a felicidade plantando moranga num sítio, mas nunca sobre o sujeito que ia de bicicleta todo dia para seu trabalho satisfatório como instrutor de yoga e largou tudo para encontrar a felicidade na bolsa de valores?


Alguns autores interessantes que ajudaram a desenvolver minha opinião sobre o tema:

David Graeber

Thomas Piketty

Eduardo Viveiros de Castro

Aldous Huxley

Hakim Bey

Epiteto

Chogyam Trungpa

Erich Fromm

Dark Mountain Project

Mackenzie Wark

Sugiram outras obras no espaço para comentários e conheçam a filosofia do Anarchistische Pogo-Partei Deutschlands.

Rede de acolhimento para mulheres viajando a negócios

Uma aluna do curso de especialização em Jornalismo Digital da PUCRS criou um dos projetos de conclusão de curso mais interessantes até o momento. Maria do Carmo Barreiros tem uma longa carreira como consultora, que a obriga a viajar pelo país. Nessas viagens, percebeu que ela mesma e muitas colegas acabam evitando sair do hotel nas horas de folga, porque há pouca receptividade a mulheres sozinhas em restaurantes, bares e outros estabelecimentos de lazer.

De fato, até há pouco tempo, segundo ela, uma mulher jantando sozinha num restaurante era tratada como prostituta, mesmo em metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro.

A partir do contato com o conceito de redes sociais, Maria do Carmo teve a ideia de criar um grupo de acolhimento para mulheres viajando sozinhas a trabalho: Mulheres Viajando a Negócios. Além do grupo no LinkedIn, há outro no Facebook. Trecho do release:

Mesmo que não haja coincidência das agendas, vale muito a troca de informações sobre opções de lazer, cultura e serviços: um taxista de confiança, um restaurante que costuma frequentar, um hotel bem localizado, com serviços por perto, e ainda solicitar referências que nos dê mais segurança caso venhamos a enfrentar algum tipo de dificuldade.

E por que não são suficientes as recomendações voltadas aos turistas em geral? Porque não cumprem as necessidades específicas de profissionais e ainda partem do pressuposto de que temos disponibilidade total de tempo para aproveitar a cidade. As dicas pessoais são mais apropriadas às nossas viagens pela similaridade das experiências e pela restrição de horários disponíveis.

Estamos reunindo essas mulheres. Juntas, poderemos ter e oferecer apoio, especialmente durante estadias em metrópoles e grandes aglomerados urbanos, locais que provocam forte sensação de insegurança e receio.

É um projeto interessante porque usa um dos principais aspectos benéficos das redes sociais, que é a possibilidade de auto-organização em grande escala, para mitigar um problema social pouco conhecido por quem não vive a situação dessas trabalhadoras. Ou seja, responde diretamente a uma necessidade do mercado.

A questão do diploma de Jornalismo

O Alex Primo recentemente publicou um texto criticando o movimento em defesa da manutenção de exigência do diploma de jornalismo para exercer a profissão, por ter objetivos corporativos e perder de vista questões mais profundas, como a qualidade da formação dos jornalistas. Vinha acompanhando o debate meio de longe, mas como o Alex perguntou o que tinha achado do texto e não se ignora pergunta de orientador de mestrado, andei refletindo sobre o problema.

A conclusão é que as ferramentas de publicação na Web contemporâneas permitem a qualquer pessoa com acesso a um computador conectado manifestar-se na esfera pública e, portanto, neutralizam de saída argumentos em ambos os lados do debate.

Por um lado, é ridículo e absurdo o argumento de defesa da liberdade de expressão apresentado pelos que exigem o fim da exigência de diploma. Dizem eles que essa exigência bloqueia o acesso de todos aos meios de comunicação de massa e, assim, seria inconstitucional. Porém, hoje em dia ninguém precisa ter acesso aos meios de comunicação de massa para expressar sua opinião. Basta criar, gratuitamente, um blog, ou mesmo enviar artigos para os dezenas de projetos de webjornalismo participativo que existem por aí — muitos deles, aliás, dentro dos próprios veículos digitais da mídia de massa.

Além disso, a exigência de diploma não impede ninguém de fazer jornalismo. Qualquer um pode se inscrever no vestibular de qualquer boa universidade, estudar, passar na seleção, freqüentar o curso de Jornalismo por quatro anos e obter seu diploma. Aliás, o melhor argumento da oposição ao diploma encontrável na Web pode ser resumido da seguinte forma, nas palavras de seu próprio autor:

1. Não se verifica essa condição necessária porque existem pessoas capacitadas para exercer o jornalismo sem serem graduadas em jornalismo.

2. Não se verifica a condição suficiente não é válida porque existem pessoas graduadas em jornalismo e que não são capacitadas para exercer essa profissão.

3. Conseqüentemente, a graduação em jornalismo não é condição necessária nem condição suficiente para a capacitação para o exercício dessa profissão.

Nessa linha de raciocínio, se alguém estudar a bibliografia do Direito e conseguir responder corretamente o suficiente à prova da OAB, deve-se imediatamente eliminar a exigência de formação na área para ser “doutor”. Da mesma forma, se juízes elaboram sentenças completamente desprovidas de conhecimento de causa em, digamos, processos envolvendo o uso da Internet, a condição suficiente do diploma em Direito não seria válida, porque existem pessoas graduadas na área incapazes de exercer a profissão. Aliás, o fato de existirem médicos, contadores e engenheiros incompetentes levaria à mesma conclusão sobre a exigência de diploma nessas profissões. Esse argumento é tão falacioso que faz acreditar quando as associações de jornalistas e acadêmicos denunciam uma conspiração dos empresários do setor.

Por outro lado, o diploma pode até garantir um nível mínimo de qualidade para o jornalismo, mas isso se restringirá apenas à mídia de massa e a alguns portais de notícias. Os jornais cada vez mais perdem leitores para a mídia social na Web, onde de qualquer maneira conteúdo produzido por amadores se mistura ao conteúdo produzido por profissionais em um grande carnaval. Não se pode negar que muitos desses amadores são mais competentes em suas áreas do que jornalistas, embora a maioria esteja bem abaixo do nível dos profissionais. É saudável que os amadores hoje possam disseminar suas idéias e opiniões via Internet, porque em casos específicos sabem mais sobre determinados assuntos do que os profissionais. Porque essa possibilidade se concretizou, também, os jornais podem ser deixados para os jornalistas.

É difícil simpatizar com a Fenaj e os sindicatos, no entanto, porque estão adotando estratégias de luta política em lugar de promover um debate racional. Isso não seria problema se estivessem tentando avançar uma agenda trabalhista qualquer. Quando se defende a formação universitária em Jornalismo como forma de garantir a qualidade da notícia, porém, espera-se que ao menos os defensores do diploma pratiquem bom jornalismo. Só que bom jornalismo raramente combina com agendas políticas. Um exemplo: na academia e nos círculos de debate ético da profissão é comum criticar o uso de sondagens de opinião como material noticiável durante campanhas eleitorais. Porém, a Fenaj não se furtou de usar as armas do inimigo na luta pelo diploma e está se valendo de uma sondagem como se ela representasse a verdade. Atitudes como essa servem apenas para dar argumentos a quem os acusa de mero corporativismo.

As associações também têm sido acusadas de não dar espaço para o outro lado no debate. Não que o “outro lado” esteja se comportando melhor, mas, de novo, é preciso dar o exemplo se queremos defender o jornalismo.

O fato é que atualmente a comunicação é um bem não-rival. Há 20 anos faria sentido combater a exigência de diploma com base no direito à liberdade de expressão. Apenas aqueles que tinham concessão do governo para usar o espectro eletromagnético com emissões de rádio e TV ou aqueles com poder econômico suficiente para imprimir um jornal ou revista podiam atuar midiaticamente. A. J. Liebling sintetizou essa situação em sua célebre frase: freedom of the press is guaranteed only to those who own one. Hoje, não mais. A Internet contrabalança o poder da mídia de massa. É claro, ainda é mais fácil um discurso ganhar relevância aparecendo em rede nacional de televisão do que num blog, mas há casos suficientes de denúncias partindo da mídia social e ganhando a imprensa para se postular a insuficiência do argumento da liberdade de expressão.

Infelizmente não se tem visto essa idéia sendo levantada pelos defensores do diploma. Talvez a explicação esteja na desconfiança que determinados setores da imprensa e academia nutrem pela mídia social — desconfiança da qual o Sindicato dos Jornalistas gaúcho dá um exemplo em sua posição sobre os blogs informativos. Se não estivessem preocupados em colonizar os novos canais de comunicação com interesses corporativos, talvez pudessem perceber que a mídia social é a maior aliada do Jornalismo nesse momento, porque permite o acesso à esfera pública por vias exteriores à imprensa.

Se a exigência de diploma não garante por si só uma maior qualidade da informação, como lembra o texto do Alex Primo, muito menos é um atentado à liberdade de expressão e à Constituição. Os interesses da qualidade da informação e da liberdade de expressão estão assegurados, a meu ver, pela mídia social. Isso torna a exigência do diploma mais uma questão trabalhista do que de democratização da comunicação. E avaliando a exigência de diploma como questão trabalhista, considero melhor mantê-la.

Os sindicatos e a Fenaj têm razão quando dizem que a eliminação da necessidade do diploma pode dar margem a abusos por parte do patronato. Também têm razão quando denunciam as estranhas coincidências nas manifestações do poder Judiciário e Executivo sobre a questão. Pode-se até discutir o fim do diploma, mas particularmente prefiro que não seja através do ministro Gilmar Mendes, presidente do STF, ou de um governo petista com histórico de autoritarismo nas relações com a imprensa. Como estratégia política de curto prazo, é necessário garantir a manutenção da exigência de diploma para o exercício profissional do jornalismo.

ATUALIZAÇÃO: Como o artigo estava ficando longo, não abordei o papel da formação universitária específica em Jornalismo e como ela influi no debate. Isso já foi discutido por gente suficiente, dei preferência a abordar os pontos relativamente inéditos. Fica para um próximo post desenvolver, mas considero a educação na área uma vantagem importante para repórteres e, principalmente, empresas. Não à toa, futuros jornalistas continuam freqüentando faculdades de Comunicação onde o diploma não é exigido.