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O noticiário apresenta estatísticas de modo simplório

A manchete do jornal Zero Hora de 10 de setembro é alarmante:

É de fato motivo para alarme a possibilidade de uma interpretação totalmente equivocada de números passar por todo o processo editorial de um diário tradicional e relevante como a Zero Hora e acabar na manchete. Infelizmente, o jornal em questão não é o único a tratar dados e estatísticas de maneira simplória no Brasil.

O leitor mais atento já terá percebido um dos problemas à primeira vista: seria de se esperar a ocorrência de mais mortes em trechos de pista simples das rodovias, porque a proporção de rodovias duplicadas é muito baixa no Rio Grande do Sul. Conforme a própria reportagem:

O Estado conta com apenas 623 quilômetros de rodovias de pista dupla, segundo dados da última pesquisa da Confederação Nacional do Transporte (CNT), divulgada em 2018. A soma representa somente 7,1% dos 8.855 quilômetros avaliados pelo órgão em solo gaúcho.

Se as rodovias duplicadas representam apenas 7,1% do total, seria improvável elas concentrarem uma proporção muito alta das mortes em acidentes automobilísticos. O fato de 84% das mortes ocorrerem nas estradas de pista simples não oferece nenhuma informação relevante ao leitor. A manchete está, no mínimo, mal redigida. Porém, ela está errada? A resposta a essa pergunta exigiria uma análise que não tenho condições de realizar no momento, mas posso das algumas indicações.

Em primeiro lugar, os números apresentados pela reportagem são irrelevantes, porque comparam maçãs com bananas. Uma rodovia só é passível de duplicação quando está saturada, ou seja, quando um número muito alto de carros transitam nela. Muitas das rodovias de pista simples são pouco usadas. A probabilidade de acidentes aumenta junto com o número de veículos transitando. Uma estrada na qual circulam 20 mil veículos por dia não pode ser comparada a outra na qual circulam apenas mil sem algum ajuste matemático, assim como não podemos comparar o número absoluto de homicídios de municípios com populações tão desproporcionais quanto Porto Alegre e Cacique Doble.

Uma abordagem mais sensata para saber se morrem mais pessoas em rodovias de pista simples ou nas duplicadas é criar uma taxa de mortes por veículo. O levantamento mais recente do Volume Diário Médio (VDM) de tráfego nas estradas gaúchas oferecido pelo DAER é de 2017. Com esses dados, é possível criar uma taxa de mortes para mil ou 10 mil veículos por rodovia e comparar a taxa média das duplicadas com a das não duplicadas. Infelizmente, os relatórios do DAER estão em formato PDF, o que torna a análise muito trabalhosa.

Além disso, no relatório do DAER as rodovias estão divididas em trechos e nem todas têm o VDM medido. Com sorte, os trechos das estradas de pista simples onde ocorrem mortes merecem mais interesse do Estado e têm seus VDMs medidos, caso contrário seria necessário realizar ainda outro ajuste — talvez extrapolando as mortes por quilômetro para o número de quilômetros totais existentes, ou algo do gênero. Também seria necessário descobrir os trechos exatos de cada morte. Como não há dados consolidados à mão e os disponíveis são uma bagunça, é complicado fazer essa análise.

Embora as taxas calculadas dessa maneira oferecessem uma aproximação maior à realidade do que a comparação de números absolutos ou porcentagens, ainda seria necessário confirmar se a principal variável para a ocorrência de acidentes fatais é a presença ou ausência de duplicação na pista. Embora seja um fator importante, ele não é isolado, pois em geral as rodovias duplicadas recebem mais investimentos e maior atenção à manutenção do que estradas de pista simples nos grotões do estado. Talvez uma taxa de mortalidade mais alta nas rodovias sem duplicação, caso verificada, pudesse ser explicada por outros fatores, como a má qualidade da sinalização ou do asfalto. Ou, se verificada uma taxa de mortalidade maior nas rodovias duplicadas, ela talvez pudesse ser explicada pela velocidade média mais alta dos veículos. Ou, ainda, a mortalidade poderia ser explicada por variáveis sem relação alguma com a rodovia, como o nível de álcool no sangue do condutor.

Se alguma das considerações acima foi levada em conta, a reportagem de capa da Zero Hora não informa. Em todo caso, estatísticas costumam descrever fenômenos complexos e o jornalismo é avesso à complexidade. O resultado é vermos com frequência os números apresentados por instituições públicas tomados por seu valor de face.

Vamos registrar o impacto do Artigo 13 na Lei de Acesso à Informação via crowdsourcing

Um dos principais pontos de crítica da Lei de Acesso à Informação, ou lei 12.527, está no decreto 7.724, que regulamenta a sua aplicação no Brasil. No Artigo 13, Inciso III do decreto, há uma janela para que servidores públicos resguardem informações sensíveis sob a justificativa de evitar trabalho extra para o órgão responsável:

Art. 13. Não serão atendidos pedidos de acesso à informação:

I – genéricos;

II – desproporcionais ou desarrazoados; ou

III – que exijam trabalhos adicionais de análise, interpretação ou consolidação de dados e informações, ou serviço de produção ou tratamento de dados que não seja de competência do órgão ou entidade.

Parágrafo único. Na hipótese do inciso III do caput, o órgão ou entidade deverá, caso tenha conhecimento, indicar o local onde se encontram as informações a partir das quais o requerente poderá realizar a interpretação, consolidação ou tratamento de dados.

Embora seja desejável um mecanismo para evitar a sobrecarga de trabalho por conta de pedidos de informações pouco razoáveis, a única garantia contra um possível abuso são os recursos previstos na lei quando um pedido de acesso à informação é negado.

Evitando jogar suspeitas sobre uma maioria de servidores que provavelmente procura realizar um bom trabalho, é necessário fiscalizar o uso do Artigo 13 como justificativa para barrar o compartilhamento de dados públicos. Por isso, criei um mapa usando a ferramenta Ushahidi, que permite colaboração de qualquer pessoa. Caso você já tenha recebido alguma negativa com base no Artigo 13, clique no link abaixo e exponha os acontecimentos:

https://crowdmap.com/map/artigo13/

Os dados mais importantes são o órgão responsável e a cidade ou esfera de governo à qual ele está ligado. Com o tempo, será possível visualizar as cidades e instituições que se valem do Artigo 13 com mais frequência para negar acesso a informações e, eventualmente, identificar abusos.

Curso online gratuito sobre jornalismo digital e interesse público

Estão abertas as inscrições para o curso Ferramentas digitais para o jornalismo de interesse público, oferecido pelo International Center For Journalists e do qual sou instrutor, junto o repórter especializado em transparência pública Fabiano Angélico.

O curso é gratuito, a distância e voltado a jornalistas e ativistas comprometidos com questões sociais. Fui aluno deste curso em 2012 e posso dizer que é muito produtivo — e, espero, se mantenha assim com a minha contribuição.

Segue o release:

Data limite para inscrições: 10 de maio de 2013 (Clique aqui para se inscrever)

Curso: 27 de maio a 28 de junho de 2013

O International Center for Journalists (ICFJ) está oferecendo um programa de treinamento de cinco semanas para 35 jornalistas brasileiros, patrocinado pela AT&T: “Ferramentas digitais para o jornalismo de interesse público”. O curso é focado no desenvolvimento de projetos multimídia sobre temas relacionados às principais dificuldades enfrentadas por comunidades pobres, como saneamento básico, educação, saúde pública e desastres naturais.

A versão brasileira do curso, ministrada em português, será dirigida por Fabiano Angélico, jornalista especializado em transparência pública, e por Marcelo Träsel, professor de Jornalismo Digital na PUCRS. Os participantes vão aprender sobre a importância das ferramentas digitais e mídias móveis, para fornecer informação de qualidade e respeitando princípios eticos em suas atividades diárias. O objetivo é a aquisição de habilidades permanentes em narrativas multimídia, que os auxiliarão em seu futuro trabalho jornalístico. Além disso, espera-se que muitos dos projetos e relatórios criados pelos participantes como atividades do currículo se tornem duradouros.

Algumas das técnicas a ser apresentadas aos participantes são o refinamento de buscas, o uso de mapas para descobrir informação, preparação de fotografias e vídeos para publicação na Web e criação de weblogs. O currículo é estruturado para encorajar os alunos a desenvolver um projeto multimídia capaz de causar um impacto positivo em sua comunidade. O curso também vai ensinar melhores práticas de uso de habilidades multimídia e plataformas durante coberturas jornalísticas.

Currículo

Semana 1: Jornalismo de interesse público
Semana 2: Internet – Uma ferramenta de serviço público
Semana 3: Ferramentas digitais
Semana 4: Como tornar seu projeto viável
Semana 5: Discussão de projetos em jornalismo de interesse público

Durante as duas últimas semanas do curso, os participantes serão convidados a propor um projeto voltado ao jornalismo de interesse público. Os ministrantes vão colaborar na definição do foco dos projetos e ajudar a definir metas e resultados concretos, assim como indicar as ferramentas digitais mais adequadas a cada projeto.

Os coordenadores vão selecionar até 15 dos participantes que apresentarem as melhores propostas e acompanhá-los em seu desenvolvimento por um mês após o término do curso. Seu papel será oferecer sugestões, críticas e encorajamento.

Em caso de dúvidas, entre em contato pelo email brasil@icfj.org. Para se inscrever, clique aqui.