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Rede de acolhimento para mulheres viajando a negócios

Uma aluna do curso de especialização em Jornalismo Digital da PUCRS criou um dos projetos de conclusão de curso mais interessantes até o momento. Maria do Carmo Barreiros tem uma longa carreira como consultora, que a obriga a viajar pelo país. Nessas viagens, percebeu que ela mesma e muitas colegas acabam evitando sair do hotel nas horas de folga, porque há pouca receptividade a mulheres sozinhas em restaurantes, bares e outros estabelecimentos de lazer.

De fato, até há pouco tempo, segundo ela, uma mulher jantando sozinha num restaurante era tratada como prostituta, mesmo em metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro.

A partir do contato com o conceito de redes sociais, Maria do Carmo teve a ideia de criar um grupo de acolhimento para mulheres viajando sozinhas a trabalho: Mulheres Viajando a Negócios. Além do grupo no LinkedIn, há outro no Facebook. Trecho do release:

Mesmo que não haja coincidência das agendas, vale muito a troca de informações sobre opções de lazer, cultura e serviços: um taxista de confiança, um restaurante que costuma frequentar, um hotel bem localizado, com serviços por perto, e ainda solicitar referências que nos dê mais segurança caso venhamos a enfrentar algum tipo de dificuldade.

E por que não são suficientes as recomendações voltadas aos turistas em geral? Porque não cumprem as necessidades específicas de profissionais e ainda partem do pressuposto de que temos disponibilidade total de tempo para aproveitar a cidade. As dicas pessoais são mais apropriadas às nossas viagens pela similaridade das experiências e pela restrição de horários disponíveis.

Estamos reunindo essas mulheres. Juntas, poderemos ter e oferecer apoio, especialmente durante estadias em metrópoles e grandes aglomerados urbanos, locais que provocam forte sensação de insegurança e receio.

É um projeto interessante porque usa um dos principais aspectos benéficos das redes sociais, que é a possibilidade de auto-organização em grande escala, para mitigar um problema social pouco conhecido por quem não vive a situação dessas trabalhadoras. Ou seja, responde diretamente a uma necessidade do mercado.

Bogotá, a Buenos Aires equatorial

Não sei como é no resto do Brasil, mas para os gaúchos em busca de civilização Buenos Aires é um destino muito popular. Sempre que há feriado, centenas de nós lotam aviões para a capital às margens do rio da Prata, famintos por bifes de chorizo, espressos bem tirados e paisagem urbana semi-européia. Pois Bogotá, capital da Colômbia, é superior a Buenos Aires em muitos sentidos.

Bogotá

Passei as últimas duas semanas por lá, junto com minha esposa, desfrutando a temperatura amena permanente de entre 15 e 20°C. Aí está uma vantagem de Bogotá sobre Buenos Aires e qualquer cidade brasileira. A serra gaúcha e a capital argentina perdem seu encanto sob o calor de 35ºC do verão. Ninguém quer comer fondue ou andar por aí com trajes cavalheirescos nessas condições. Como as regiões frias da Colômbia são frias por causa da altitude, não da latidude, o clima se mantém o mesmo o ano inteiro, com variações apenas na quantidade de chuvas.

Verdade é que esperávamos encontrar alguma mistura de Bolívia com São Paulo — embora meu pai e meu irmão houvessem visitado Bogotá e falado maravilhas –, mas em lugar disso encontramos uma das capitais latinoamericanas mais bonitas, seguras e organizadas. Indo do aeroporto para a Candelária, vimos na cordilheira aglomerações de prédios em tijolo à vista. “É que nem no Brasil, tudo tomado de favelas!”, pensamos. Só ao chegar mais perto descobrimos que, ao contrário daqui, lá são as pessoas ricas que vivem nos morros. E que quase todas as construções no centro são de tijolo à vista, estilo ditado pelo plano diretor.

De fato, a paisagem de Bogotá lembra um Rio de Janeiro sem mar e organizado. A cidade cresceu num eixo norte-sul, sendo a região do centro ao norte a mais rica. O bairro da Candelária é o mais antigo, construído ao redor do local de fundação de Bogotá no século XVI. Encontra-se quase totalmente preservado e restaurado. Pode parecer inacreditável para leitores brasileiros, mas ninguém pensou em derrubar mansões coloniais centenárias para dar lugar a arranha-céus. De fato, há muito poucos prédios com mais de cinco andares nessa capital de mais de 8 milhões de habitantes. Chama atenção o gosto dos colombianos por janelas e jardins. Por mais pobre que seja uma residência, em geral ela terá o máximo de vidro possível e muitas floreiras e canteiros.

Quem acompanha o noticiário pode pensar que a Colômbia é uma terra de ninguém. Há, mesmo, algumas regiões do país dominadas pelas Farc, mas se restringem mais às zonas de floresta no sul e sudoeste. No resto do país, o que há é policiamento ostensivo e extensivo. Nas principais avenidas da capital se pode contar um guarda a cada cinco quadras. Paradas de ônibus e pontos de grande circulação são sempre vigiados. Pode-se ver gente tranqüila caminhando em parques e namorando em bancos de praça à noite. Em momento algum nos sentimos ameaçados, embora a histeria com a violência no Brasil não nos tenha deixado relaxar. Nesse sentido, é um pouco como em São Paulo: o governo restringiu a violência descamisada às áreas pobres e os endinheirados — ou turistas — podem passear tranqüilos.

Já nos primeiros dias começamos a desejar que Bogotá se torne nosso destino de veraneio, porque o clima é bom, há restaurantes e programações culturais excelentes e os preços regulam com os do Brasil. A maior parte dos serviços e produtos custa menos. Táxi é ridiculamente barato, uma corrida do aeroporto ao norte custa algo entre R$ 15 e R$ 20. Os taxistas tentam enrolar sempre, ainda mais quando vêem um gringo, mas o valor era tão baixo que não valia a pena a discussão. Uma refeição completa para dois num dos melhores restaurantes gira em torno dos R$ 100. Beber, por outro lado, é horrivelmente caro. A cerveja mais barata que encontramos foi num boteco da Candelária, na Calle del Embudo, a R$ 2 a long neck. Na maior parte dos lugares, custa de R$ 4 para cima.

O melhor da Colômbia, no entanto, são os colombianos. Trata-se de um povo extremamente gentil e cortês, sempre atendendo uns aos outros e aos estrangeiros atenciosa e polidamente — exceto no trânsito, um verdadeiro caos. O pessoal nos hotéis e restaurantes parece ter um interesse genuíno em servir bem. Um policial se deu o trabalho de parar um ônibus para nós, quando ficamos em dúvida sobre qual linha tomar. São também um povo aberto. Na primeira noite, fomos a um bar no bairro da Macarena, comer alguma coisa. O lugar estava lotado com um grupo de freqüentadores amigos. Logo fomos integrados ao bate-papo e todos se mostraram interesse em garantir que tivéssmos uma boa experiência em seu país. Fica até difícil acreditar que esse mesmo povo dividiu a Colômbia numa guerra civil e queimou duas vezes o palácio da Justiça da praça Simón Bolívar. Creio ser tudo uma questão de dignidade. São gentis e corteses por serem dignos, e por esse mesmo motivo não aturam desrespeito a seus direitos.

Dicas de viagem

As sugestões de restaurantes, você confere no Garfada.

A primeira coisa a fazer quando chegar em Bogotá é procurar um PIT, ou ponto de informações turísticas, e pegar o excelente mapa e guia que eles oferecem gratuitamente.

As cidades da Colômbia são divididas em geral em carreras e calles. Na capital, as carreras correm no sentido norte-sul ao longo da cordilheira, e as calles no sentido leste-oeste, transversalmente à cordilheira. O número de um prédio sempre terá a informação da rua ou avenida na qual sua quadra inicia. Assim, por exemplo, o Ambalá, cujo endereço é Carrera 5 nº 13-46,  fica na Carrera 5, na quadra após a Calle 13, número do prédio 46.

Para se locomover em Bogotá, o melhor é usar táxi ou então os microônibus que fazem todas as linhas possíveis e imagináveis. O sistema Transmilenio, com ônibus circulando por corredores exclusivos, é sempre muito lotado. De início, você não vai entender as placas dos microônibus, cheias de siglas e números. Em geral, elas mostram o bairro ou região à qual se dirigem e depois por quais avenidas e ruas passam. Se a placa diz “Chapinero K7 a C. 72 K11″, por exemplo, ele vai ao bairro de Chapinero pela Carrera 7, depois entra na na Calle 72 e então toma a Carrera 11. É uma experiência tipicamente colombiana usar esses microônibus com as mais variadas cores e acessórios automobilísticos, tentando não ser esmagado pelos outros passageiros enquanto o motorista costura as ruas da cidade na velocidade máxima possível, tudo isso com salsa tronando em alto volume no rádio. Eles param em qualquer lugar, basta apertar o botão de descida, se houver, ou gritar para o motorista.

La CandeláriaPor questões de logística, acabamos ficando em dois hotéis diferentes em Bogotá. O primeiro, Ambalá, fica na Candelária. É meio velho e feinho, mas os quartos são limpíssimos, a água é quente e o serviço inclui rede wi-fi e ligações locais gratuitas, tudo por cerca de R$ 100 para duas pessoas. Eles também pegam os clientes no aeroporto. A partir desse hotel, onde ficamos três noites, pudemos conhecer bem o centro da cidade e suas atrações, como o Museo del Oro, a Coleção Botero e o Cerro Monserrate. O Museo Nacional também vale a pena, tanto pela coleção de artefatos históricos da América pré-colombiana até as guerras de libertação, quanto pelo fato de estar instalado numa antiga prisão projetada para ser um panóptico.

Villa de Leyva

Villa de LeyvaNo quarto dia partimos para Villa de Leyva, uma cidadezinha colonial perfeitamente preservada, tombada como patrimônio histórico mundial. É a Gramado da Colômbia, mas sem ser brega. Ficamos na pousada San Martín, muito bonita e aconhegante por R$ 50 ao dia para o casal. Descobrimos nessa pousada que muitos estabelecimentos colombianos não colocam tábuas nos vasos sanitários, e que o chuveiro elétrico desbancou o aquecedor a gás, um problema num país frio com rede elétrica em 110v.

Depois de vagar pelas ruas de paralelepípedos e admirar a paisagem da Plaza Mayor, a maior praça central da Colômbia, a sugestão é alugar uma bicicleta e pedalar pela zona rural, para conhecer o observatório astronômico dos índios muiscas e o fóssil inteiro de um cronossauro de 12 metros. Aliás, há tantos fósseis na região, antigamente um mar, que as pessoas os usam para construir muros e pisos. Também aproveite para comprar produtos de lã, muito bons e baratos.

Villa de LeyvaPara chegar a Villa de Leyva, há um ônibus direto da rodoviária de Bogotá em torno das 14:00, ou você pode tomar uma condução até Tunja — um lugar horrível — e de lá um microônibus para Leyva. A volta funciona do mesmo jeito. Convém evitar os finais de semana, quando a cidade lota de bogotanos.

Zipaquirá e Guatavita

De volta a Bogotá, instalamo-nos na Casona del Patio Amarillo, uma casa colonial transformada em pousada. É um pouco mais caro do que o Ambalá, R$ 140 por dia para um casal, mas em compensação os quartos são mais amplos e bonitos, o café da manhã oferece várias opções, há café grátis na recepção o dia todo, wi-fi e, principalmente, fica na Zona G, a zona gourmet, aprazível e bem-localizada região da cidade. Para quem gosta, também fica perto da Zona Rosa, onde rola o agito noturno. Único defeito é o maldito chuveiro elétrico.

A partir dessa nova base, passamos a aproveitar la dolce vita bogotana, freqüentando alguns dos melhores restaurantes e nos dedicando à pura e simples flânerie. Nesses últimos dias também fizemos um roteiro para a Catedral de Sal de Zipaquirá e para a lagoa sagrada de Guatavita, a responsável pela lenda do El Dorado — é bom visitar o Museo del Oro antes de ir até lá, para compreender melhor o contexto histórico. Infelizmente, descobrimos ao chegar à lagoa que não se pode mais visitá-la às segundas-feiras. O próprio escritório de turismo não sabia disso. Portanto, melhor se informar sobre os horários antes de ir. Em todo caso, a paisagem até lá é muito bonita. Quanto à catedral, é muito mais interessante como projeto arquitetônico do que como mina. Ela é nova, substitui uma antiga catedral numa mina colapsada logo ao lado. O arquiteto colombiano que a projetou pensou mais em uma catedral conceitual do que numa igreja como estamos acostumados, espalhando nave, cúpula e outros elementos ao longo da mina. O resultado é muito interessante.

Nosso motorista foi Elkin Suarez, sujeito muito legal e que fez o preço camarada de R$ 170 por um dia inteiro de viagem. Ele também nos levou à rodoviária e ao aeroporto na volta. Seu telefone é 314-220-5295.