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A PEC 55 e a UFRGS

As discussões sobre a PEC 55, atualmente em tramitação final no Senado, em geral tratam do orçamento da União de forma abstrata o suficiente para se tornar incompreensíveis para quem não tem um diploma em economia ou gestão pública. Por isso, vale a pena cada um analisar o impacto da emenda constitucional que o governo Temer pretende aprovar sobre o seu contexto pessoal.

No meu caso, sou professor e pesquisador na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. O ocupante do Planalto, o presidente do Banco Central, deputados, senadores, a FIESP, a Febraban e outras entidades tentam sempre passar a impressão de que a PEC 55 vai obrigar as instituições a uma racionalização dos custos, cortando apenas os gastos supérfluos. Convenientemente, a reitoria da UFRGS preparou um estudo analisando qual teria sido o impacto da nova regra constitucional na universidade, se ela estivesse em vigor desde 2007. A tabela abaixo resume os números:

pec-55-ufrgs-proplan

Como se pode verificar, o orçamento de 2015 seria reduzido em cerca de 60%. Que falta fariam estes R$ 109 milhões para a UFRGS? Seriam cortadas as vantagens nababescas de marajás do serviço público? Os pesquisadores deixariam de se hospedar em hoteis 5 estrelas, para ficar em 3 estrelas? O uísque 18 anos seria trocado por uísque 8 anos?

Na verdade, o resultado seria a absoluta estagnação e, talvez, o retrocesso em diversas linhas de pesquisa, oferta de cursos e assistência estudantil. Abaixo estão descritos os valores destinados apenas ao custeio das atividades básicas da universidade em 2015:

  • Assistência estudantil: R$ 17,9 milhões
  • Limpeza: R$ 13,4 milhões
  • Transporte terceirizado: R$ 5 milhões
  • Manutenção predial: R$ 14,7 milhões
  • Energia elétrica, água e telefonia: R$ 28,5 milhões
  • Vigilância: R$ 19,2 milhões
  • Total: R$ 98,7 milhões

Como se pode verificar, o orçamento disponível para 2015, se a PEC 55 estivesse em vigor nos dez anos anteriores, não seria suficiente para pagar nem mesmo os custos mais básicos de operação da UFRGS. Todos os dias, alguém é assaltado no entorno dos campi, mas haveria menos recursos para vigilância. As instalações, mesmo com investimento de R$ 14,7 milhões em manutenção predial, já são insalubres em alguns casos. Basta observar o tamanho da fila no Restaurante Universitário em qualquer dia da semana para concluir que a assistência estudantil está muito aquém do necessário para garantir que os estudantes concluam seus cursos.

Não apenas isso, mas o contingenciamento significaria que diversos novos cursos, criados desde 2007, não teriam saído do papel. Afinal, um curso novo exige não apenas professores, mas salas, banheiros e luz, no mínimo. Diversas pesquisas iniciadas no período teriam sido vetadas por falta de dinheiro para manter equipamentos de laboratório funcionando, pois exigem energia, água e limpeza — hoje em dia, já acontece de pesquisadores terem de pagar contas do próprio bolso, para não perder suas colônias de bactérias ou deixar traças comerem documentos.

Funcionários qualificados produzem mais e geram mais recursos para o Estado, na forma de impostos. Pesquisas científicas permitem criar novos produtos, que pagam impostos para serem comercializados, ou aumentar a eficiência da produção, o que também aumenta impostos. A verba destinada ao custeio e expansão da universidade não é liberalidade do Estado para com o dinheiro do contribuinte, mas um investimento.

Ainda assim, é preciso reconhecer a situação fiscal tenebrosa do Brasil e encontrar formas de colaborar com o ajuste das contas. A UFRGS e outras instituições certamente podem encontrar formas de reduzir os custos — na verdade, já vêm fazendo isso nos últimos anos, como resposta ao contingenciamento de verbas imposto pelos ministérios da Educação e da Ciência e Tecnologia; por exemplo, bancas de dissertação e tese passaram a ser realizadas via teleconferência, para poupar em passagens aéreas e diárias.

Todavia, mesmo que se encare o ajuste fiscal proposto com otimismo e boa vontade, deixando de lado o fato de um presidente ilegítimo estar propondo emendar a Constituição Federal a um Congresso criminoso, é impossível deixar de perceber o desequilíbrio nos sacrifícios exigidos por Brasília. Enquanto a oferta dos serviços de Saúde e Educação, voltada aos trabalhadores e aos pequenos empresários, vai ficar, na melhor das hipóteses, estagnada, o empresariado e os rentistas não vão fazer sacrifício algum. Pelo contrário, estão recebendo ainda mais benefícios de Temer.

Quando “desonera” o “setor produtivo”, o governo usa o argumento de que os benefícios se revertem no futuro, indiretamente, em mais empregos e uma economia mais dinâmica, cujo resultado é um aumento na arrecadação de impostos. Esse discurso nunca é aplicado, porém, ao investimento em profissionalização de cidadãos e pesquisa científica.

Enfim, a PEC 55, da maneira como está apresentada, reduzirá drasticamente a capacidade de se formar trabalhadores especializados e se inovar tecnologia no Brasil. Este efeito nefasto provavelmente não vai se restringir aos 20 anos previstos para o ajuste fiscal, mas deve prejudicar o desempenho das universidades num prazo ainda mais longo. A Educação e a Ciência são setores que respondem lentamente às condições externas. Esse até poderia ser um sacrifício razoável e passível de discussão, se os malefícios fossem distribuídos de forma equânime. No momento, porém, como sempre no Brasil, a conta está sendo socializada e as benesses, privatizadas.

Salvar

O bom filho à casa torna

Em março de 2007, com apenas 28 anos de idade e concluindo o mestrado, a PUCRS me deu a oportunidade de iniciar a minha carreira como docente na área de Jornalismo. A partir de julho de 2016, entro em nova fase na carreira, com minha transferência da Famecos para o curso de Jornalismo da Fabico, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Na UFRGS, vou assumir algumas das disciplinas de Ciberjornalismo, criadas para atender às novas diretrizes curriculares para o ensino do Jornalismo.

Será um prazer imenso retornar à Fabico, onde cursei a graduação entre 1997 e 2001 e, mais tarde, o mestrado, entre 2005 e 2007. Sempre tive o desejo de retribuir o investimento público em minha formação levando para lá o conhecimento que desenvolvi nesta década como pesquisador, além das habilidades práticas como jornalista digital e agitador cibercultural. No primeiro semestre, enquanto o currículo novo não é implantado, vou substituir o professor Wladimir Ungaretti na orientação dos alunos que produzem a revista Sextante e o jornal Três por Quatro. Será uma boa oportunidade de compartilhar algumas experiências do Editorial J com os alunos da Fabico.

Também vou participar do grupo de pesquisa em Jornalismo Digital, o JorDi, criado pela professora Luciana Mielniczuk.

Essa mudança é o ponto culminante de uma década de trabalho intenso como pesquisador e docente. Desde o ingresso no mestrado, havia determinado para mim mesmo o objetivo de me tornar pesquisador e docente no magistério superior federal. Se na PUCRS pude desenvolver bem as habilidades de professor e, até certo ponto, administrador, essa nova fase na carreira vai se focar em ampliar minha participação como pesquisador nos campos do Jornalismo e da Cibercultura.

Com o tempo, pretendo retomar as atividades neste weblog e no Garfada. Considerei adequado recomeçar compartilhando a alegria pelo raro privilégio de concretizar um sonho. :-)

As cotas raciais em universidades públicas são bom negócio

O melhor que os brasileiros contrários às cotas raciais em universidades públicas e outros tipos de ações afirmativas têm a fazer é ficar de boca fechada enquanto o Superior Tribunal Federal vota a constitucionalidade desse tipo de iniciativa. As atuais políticas de cotas são uma pechincha! Em troca de terem sido mortos, torturados, estuprados, condenados aos piores trabalhos braçais do mundo, para fazer a economia brasileira crescer e enriquecer os colonizadores portugueses, os negros e índios estão pedindo apenas uma dúzia de vagas em cada curso universitário público do país. Poderiam exigir muito mais. Nenhum negro ou índio está pedindo para se deitar com a minha mulher, ou vender minha filha para angolanos, ou me aplicar algumas chibatadas. Nenhum negro ou índio bateu à porta da minha casa pedindo 80% do meu patrimônio a título de indenização pelos salários, horas extras e INSS devidos a seus tataravós desde o século XVI.

Então, recomendo aos meus colegas de etnia que fechem negócio com as cotas raciais imediatamente e sem regatear, porque os negros e índios estão nos oferecendo uma barganha chinesa.

Muita gente argumenta que não tem culpa pelas atitudes de seus antepassados e, portanto, não é justo ter de pagar a conta agora. Creio que o cartum abaixo resume bem melhor do que eu poderia escrever os contra-argumentos a essa proposição:

Fonte: http://bloggingblue.com/2012/02/reverse-racism-or-a-fairy-tale-for-conservative-children/

Fonte: http://bloggingblue.com/2012/02/reverse-racism-or-a-fairy-tale-for-conservative-children/

Chegou o momento de estendermos a mão para os negros e índios e ajudá-los a subir na escala social e econômica. Se nenhum de nossos antepassados tomou essa responsabilidade humanitária para si, temos agora uma excelente oportunidade de corrigir seus erros e nos tornarmos mais honrados.

Apoio essa compensação mesmo vindo de famílias de colonos alemães, que normalmente não usavam escravos na lavoura. Meus antepassados podem não ter sido proprietários de escravos, mas ganharam terras roubadas dos índios e foram beneficiados pelo crescimento econômico baseado no trabalho dos negros. Eu mesmo, até hoje, sou beneficiado pela cultura racista do Brasil, que me abre todas as oportunidades e sempre me passa à frente dos negros e índios em qualquer fila. Então, sim, sinto que é minha responsabilidade compensar essas etnias pelo mal que lhes causo, ainda que involuntariamente.

Além do processo iniciado pelo Partido Democratas contra a política de cotas da UnB — um dos paladinos dessa iniciativa é o famoso senador Demóstenes Torres, cujos argumentos são do quilate desse aqui: “As negras foram estupradas no Brasil. A miscigenação deu-se no Brasil pelo estupro. Gilberto Freyre, que hoje é renegado, mostra que isso se deu de forma muito mais consensual.” –, há também um processo de um ex-candidato gaúcho ao curso de Administração da UFRGS. Examinemos seus argumentos.

Tem no processo alguns argumentos que considero eficientes, como a questão de que esse tipo de diferença (social) já é reduzido no Imposto de Renda progressivo. Assim como se eu estudei em uma escola particular, já foi compensado porque eu não utilizei o serviço público durante 11 anos.

De todos os argumentos absurdos dos contrários às cotas, esse deve ganhar o prêmio principal. Em primeiro lugar, a Receita Federal permite que os gastos com educação sejam descontados do imposto sobre a renda. Ou seja, o que existe é uma compensação do Estado aos ricos que preferem usar o serviço privado, em vez do serviço público. Estudar em escola particular não compensa a sociedade por nada.

Em segundo lugar, os ricos podem até pagar mais imposto de renda no Brasil, mas recebem isenções e descontos em diversas operações econômicas. Por exemplo, o imposto de renda sobre negociação de ações nas bolsas de valores é zero para quem vender menos de R$ 20 mil em ativos no mês. Os operadores da Bovespa estão sendo compensados pelo quê, exatamente? E empresas como a General Motors, que recebem isenção fiscal para produzir seus carros, estão sendo compensadas por qual tipo de sofrimento imposto pela sociedade brasileira?

Além do mais, os trabalhadores isentos de pagar imposto de renda ganham tão pouco que costumam gastar todos os seus ganhos em moradia, alimentação, vestuário e outras necessidades. Ao usarem sua renda, acabam pagando direta ou indiretamente impostos como ICMS, IPI, ISSN, entre outros. Enquanto isso, o dinheiro depositado em investimentos financeiros não paga imposto algum e recebe desconto progressivo sobre a renda gerada.

O próximo argumento é o da meritocracia:

Mas mérito intelectual, todos tem de disputar de igual para igual.

Este é um dos principais sofismas apresentados pelos contrários às cotas. O argumento confunde o caráter igualitário e universal dos concursos vestibulares com igualdade de condições entre todos os candidatos. Sob esta ótica, todos os brasileiros têm as mesmas oportunidades para se preparar intelectualmente para o vestibular.

Todos os que acreditam nesse argumento deveriam assinar um jornal qualquer com urgência, porque estão completamente alienados da realidade. O ensino público fundamental e médio no Brasil é uma piada de humor negro. Os alunos recebem um péssimo acompanhamento pedagógico e têm de lidar com falta de professores, despreparo de alguns profissionais, ausência de estrutura mínima para o ensino etc.. É um caso americano, mas este relato do astrofísico Neil DeGrasse Tyson, apresentador da nova edição do programa Cosmos, é bastante educativo:

Ainda que as escolas públicas brasileiras fossem muito boas, há o contexto social dos alunos. Por melhores que sejam a estrutura e os professores, nenhum aluno aprende se não estiver em boas condições físicas e psicológicas. Uma fração muito maior dos alunos da rede pública passam fome ou vêm de famílias desestruturadas, que não podem apoiá-los, quando comparados aos alunos da rede privada. Os negros e índios ainda têm de lidar com o preconceito dos colegas e professores, em adição aos problemas econômicos e familiares. Afirmar que estes candidatos podem disputar uma vaga no vestibular em condições de igualdade com egressos de escolas privadas e famílias burguesas não é apenas equivocado: é desumano.

Além de sofismático, esse argumento é falacioso, porque ignora a lógica da competição pelas vagas num vestibular com sistema de cotas. Os alunos candidatos às vagas de acesso universal não disputam com os alunos candidatos às vagas de cotas sociais e raciais. Existe um número de vagas definido para cada grupo e os candidatos disputam essas vagas entre seus iguais.

De modo que, se alguém não consegue ser aprovado no vestibular, seja para uma vaga de acesso universal ou destinada a cotistas, é mesmo por falta de mérito. Vejam bem: os cotistas também necessitam demonstrar maior mérito em relação a outros cotistas. Só os negros, índios e egressos de escolas públicas com mais capacidade são aprovados. Nada impede, inclusive, que o grupo de cotistas possa um dia ter notas mais altas que as do grupo de acesso universal nas provas do vestibular.

Se isso não ocorre, é mais uma evidência de que a reserva de vagas foi uma decisão acertada, por comprovar que os egressos de escolas públicas, negros e índios realmente não têm condições de disputar vagas com egressos de escolas particulares. Porém, isso não indica falta de mérito.

As universidades em geral não divulgam as notas dos cotistas, provavelmente para evitar represálias. Isso significa, inclusive, que alguns cotistas podem ter notas superiores às dos aprovados para vagas de acesso universal, mas ninguém sabe. Uma das poucas tabelas disponíveis é da Universidade Federal de São João Del-Rei, em Minas Gerais. Analisando os números, pode-se perceber que a diferença média entre as notas de corte dos grupos de acesso universal e ação afirmativa fica entre 10% e 20%. Será que as escolas públicas são apenas 20% piores do que as escolas particulares? E como incluir nesse cálculo a desnutrição, o preconceito, a estrutura familiar prejudicada?

Em suma, o mérito é uma qualidade contextual, relativa, impossível de ser aferida somente pela nota de uma prova. Sob qualquer ponto de vista, um negro, índio ou egresso de escola pública tem muito mais mérito em simplesmente chegar a se inscrever para um concurso vestibular do que um candidato de classe média, que comeu três refeições por dia a vida inteira e teve pais que puderam lhe pagar uma escola particular, livros, aulas de reforço e férias na Disney.

O que nos leva a outro argumento comum contra as ações afirmativas na universidade pública:

Esse é um compromisso social de todos, de sempre buscar governantes que tenham a proposta de levantar a educação pública. A intenção social só pode ser de que todos tenham a mesma condição. E não que um passe na frente de outro por necessidade ou porque a educação pública não tem qualidade.

Algum dos leitores aceitaria trabalhar todos os dias, mas recebendo uma nota promissória para daqui dez anos, em vez do salário em dinheiro? Pois é exatamente essa a proposta que os contrários às cotas estão fazendo aos negros, índios e egressos de escolas públicas quando defendem a melhoria do ensino público como solução mais desejável.

Uma vez definido que os negros, índios e pobres merecem alguma compensação da sociedade brasileira, por terem sido privados de seus direitos ao longo dos séculos em que o Brasil se desenvolveu a ponto de deixar a situação de colônia subdesenvolvida e se tornar uma economia maior que o Reino Unido, é preciso pagar a conta imediatamente. O sistema de cotas sociais e raciais pode ser visto como um financiamento sob tabela SAC, em que primeiro se paga a maior parte dos juros, depois o valor do dinheiro emprestado. As ações afirmativas são os juros que a sociedade vai pagando, enquanto não melhora as condições para que todos os candidatos a uma vaga em universidade pública possam efetivamente competir em pé de igualdade.

Por outro lado, no fundo, quem propõe deixar de lado as ações afirmativas em prol do esforço do Estado para melhorar o ensino na rede pública quer mesmo é manter o status quo. É muito difícil crer que os proponentes desta solução realmente acreditem na sua execução em uma década, ou mesmo duas. Na verdade, estão pouco ligando para justiça social, ou pensam que os negros, índios e pobres são imbecis completos e vão topar fazer mais um empréstimo a fundo perdido para a elite brasileira — bastante conhecida por não honrar seus compromissos, aliás.

O Brasil precisa melhorar as condições de vida de sua população agora. O ensino superior é um dos poucos fatores que comprovadamente geram desenvolvimento social, em qualquer lugar do mundo. Garantir que negros, índios e pobres tenham acesso à universidade pública é a maneira mais rápida e eficiente de distribuir renda e diminuir os preconceitos sociais e raciais. E toda a sociedade, inclusive os críticos das ações afirmativas, vão se beneficiar dos resultados. O projeto Bolsa-Família tem demonstrado, nos últimos anos, o imenso impacto positivo do desenvolvimento social sobre a economia como um todo. As cotas são mais um passo para tornar o Brasil um país sólido para todos nós.

ATUALIZAÇÃO: A Lenara Verle me enviou esse ótimo FAQ da UFMG sobre ação afirmativa. Vale a pena consultar, aborda algumas questões não contempladas no texto acima.

ATUALIZAÇÃO 2: O Marcelo Soares indica alguns estudos da UFBA sobre o impacto acadêmico da adoção de cotas sociais e raciais.

O patrimonialismo brasileiro e os ataques ao vestibular

Mais um vestibular da UFRGS passou e mais uma vez há choro e ranger de dentes pela dificuldade das provas. É bastante ilustrativo ler o artigo de um pai indignado com o enunciado da redação, publicado em Zero Hora, e os respectivos comentários.

O tal pai indignado parece ver uma conspiração de intelectuais de esquerda para humilhar os estudantes gaúchos — os de direita ou “centro”, supõe-se, pois os de esquerda certamente teriam sido devidamente corrigidos politicamente em casa:

Para dividir as tarefas de eliminação, nos anos anteriores podem ter sido as questões de física, matemática, química ou todas elas juntas… Este ano, tudo indica que o destaque será a redação, mas tem que parecer politicamente correto, de preferência exaltando nossa nacionalidade, nossas origens lusófonas, quem sabe, a nossa língua!

O argumento principal deste pai é tão pedestre que nem merece uma refutação a sério. É mais interessante analisar o argumento subjacente não apenas a este, mas à maioria dos artigos de cidadãos indignados com a dificuldade dos vestibulares e outros concursos públicos (provas da OAB costumam ser um bom alvo): a de que as exigências acadêmicas deveriam se rebaixar à competência média dos candidatos. Exigir desempenho excelente se tornou algo análogo ao bullying.

É um sintoma da visão patrimonialista que a elite brasileira tem do Estado. O ingresso na universidade pública é visto pelas classes média e alta, cujos adultos com filhos em idade universitária em grande maioria foram alunos dessas instituições, como um tipo de cargo hereditário. É como um título de nobreza. O vestibular é apenas uma formalidade útil para manter o campus livre de egressos do ensino público.

As mesmas pessoas que lamentam a dificuldade do vestibular, muitas vezes, criticam o sistema de cotas. Conferir privilégios é antidemocrático, a isonomia está prevista na Constituição, trata-se de racismo reverso blablablá. Todavia, o desejo de que as provas do vestibular tenham a dificuldade “adequada” à capacidade dos candidatos é quase uma proposta de cotas. Cotas para “esforçados”. Ou seja, cotas para jovens de classe média ou alta que cumpriram direitinho seu papel social em boas escolas e bons cursinhos e boas famílias e como assim, Papai Noel não deixou presente?

As pessoas dizem a verdade quando afirmam criticar as cotas sem base em racismo. Brasileiros têm preconceito contra pobres de todas as cores e etnias. O problema das cotas não é tanto favorecer negros, índios, cafuzos e mamelucos — por acaso, a maioria dos pobres — quanto outorgar privilégios a pobres. Privilégios são para a elite. A ralé que fique com os brioches.

As cotas raciais têm por objetivo compensar justamente o desequilíbrio social causado pelo excesso de privilégios da elite, que se apossou do Estado desde a época das capitanias hereditárias e ainda mantém feudos em determinadas esferas. A compensação nem mesmo está sendo concedida às pessoas que sofreram mais diretamente com a exclusão, mas a seus filhos e netos. É uma forma de reequilibrar a sociedade, garantindo a igualdade de oportunidades para todos que a democracia exige.

Conceder uma vantagem aos setores excluídos econômica, social e politicamente é o contrário de adequar a dificuldade das provas à capacidade intelectual média. Passar a mão na cabeça dos estudantes esforçados não é democracia, é seu oposto. É tornar o social particular, o público, privado. Um cidadão que se preze deveria ter vergonha de sequer cogitar fazer com que as instituições sociais se adaptem a seus problemas pessoais. (De fato, na Alemanha descobri que os brasileiros são conhecidos por tentarem esse tipo de coisa, incorrendo no desprezo dos nativos.)

Num país onde não haja a visão do Estado como um patrimônio particular, as pessoas talvez pudessem perceber que alguns recursos são limitados e, no caso das vagas em universidades públicas, o interesse social recomenda sua distribuição aos mais intelectualmente competentes. Uma prova difícil seleciona as pessoas mais capazes de usar os recursos públicos para o desenvolvimento da sociedade. Ponto. Não importa sua origem social. Quem não tiver a competência exigida pode se esforçar mais e ter sucesso no ano seguinte. Isso é democracia, isso é igualdade de oportunidades.

O argumento mais perigoso presente nessas catilinárias contra o vestibular é o de que os pobres jovens se esforçam e acabam humilhados pelo fracasso. Os adultos que dizem essas coisas estão prestando um desserviço aos jovens.

Em primeiro lugar, a vida é dura. Descobrir que existem coisas além de nossa competência é muito saudável. De fato, algumas coisas estarão para sempre além da competência de algumas pessoas. No meu caso, por exemplo, jogar futebol e ficar milionário ainda jovem. Faz parte. Essa percepção incentiva o aprimoramento das próprias capacidades e a regulação das próprias expectativas.

Em segundo lugar, não há humilhação alguma em fracassar num concurso. É frustrante esforçar-se e não atingir os objetivos, mas também faz parte. Algumas pessoas têm mais talento para determinadas coisas e as obtém com mais facilidade. Bom para elas. O choque de ter o ego arrastado na lama por uma questão que outras pessoas parecem responder sem maiores dificuldades pode ser uma boa fonte de energia para nos esforçarmos mais. Algumas coisas realmente são muito difíceis e não podemos obtê-las por mais que desejemos e nos esforcemos. Triste, mas apenas os seus pais se importam. O cosmos não está nem aí. Melhor mudar de objetivos.

Em resumo, o vestibular é uma excelente oportunidade para os jovens se tornarem adultos. E os adultos não deveriam lhes negar essa oportunidade.

Como entrar no mestrado

Todo ano, a partir de agosto, começo a receber e-mails de pessoas pedindo dicas sobre como se preparar para a seleção dos programas de pós-graduação da UFRGS ou da PUCRS. Em geral, chegam por indicação de amigos que conhecem minha trajetória como ex-aluno e ex-postulante às vagas nos dois programas. Como aparentemente há muito interesse no assunto, resolvi compartilhar meu padrão de trabalho para esse tipo de seleção. As dicas valem principalmente para os programas em Ciências Sociais Aplicadas, mas podem ser úteis a outras áreas. As dicas valem principalmente para o mestrado, até porque um candidato ao doutorado já deveria saber de tudo isso.

Colaborem com suas observações no espaço de comentários.

Conheça o programa e seus professores

A preocupação principal em uma seleção de mestrandos ou doutorandos é garantir que as linhas de pesquisa do Programa de Pós-Graduação se mantenham. Cada PPG tem uma identidade própria e privilegia certas abordagens do campo de atuação. Essa identidade é dada pelo conjunto das pesquisas dos professores integrantes. Por exemplo, há até pouco tempo o PPGCOM da UFRGS não tinha ninguém habilitado a orientar pesquisas em cinema, portanto qualquer projeto com um tema ligado a essa área era recusado, ou o candidato obrigado a desistir de sua idéia.

O mínimo que você tem a fazer se quer entrar numa pós-graduação, portanto, é conhecer o trabalho dos professores (até para poder indicar os possíveis orientadores quando for preencher o formulário de inscrição). O primeiro passo é buscar a página da Web dos programas que lhe interessam e ler atentamente todo o material, em especial as descrições das linhas de pesquisa. Não se preocupe muito em compreendê-las, em geral são redigidas de forma criar o mínimo de limitações de trabalhos que possam ser incluídos em seu escopo. Basta identificar aquela em que sua proposta parece se encaixar melhor. Depois, cheque os Currículos Lattes dos professores dessa linha de pesquisa e tente ler ao menos alguns de seus artigos.

Mantenha o foco no projeto de pesquisa

O documento mais importante em uma seleção de pós-graduação é seu projeto, ou anteprojeto (porque o projeto vai se consolidar durante o primeiro semestre de mestrado). Na prática, é uma proposta explicando o que você pretende fazer durante os dois anos de estudos. Esse texto indica aos selecionadores quais são seus interesses, sua bagagem teórica, sua capacidade de formular problemas e imaginar soluções metodológicas e, de uma maneira geral, sua afinidade com a academia. O projeto deve estar adequado às linhas de pesquisa e, de preferência, a algum orientador do PPG. Você pode até passar nas provas, mas se o projeto for de má qualidade ou inadequado, esqueça.

O mais difícil na concepção do projeto é formular o problema de pesquisa. Pode parecer algo trivial, mas não é. A pergunta central de sua proposta deve condensar todas as suas premissas e todas as suas hipóteses. Não é algo para se pensar numa viagem de ônibus. Um bom problema de pesquisa só aparece após muita leitura e alguma observação do objeto. De fato, tenha certeza de que estará até o último momento do mestrado refletindo sobre a formulação de seu problema. Os selecionadores sabem disso, então se esforce, mas não se estresse tentando resolver essa parte. Por outro lado, evite apegar-se a este e a qualquer aspecto do projeto, porque ele fatalmente vai sofrer mudanças.

Todo o resto do projeto decorre do problema de pesquisa. Todos os elementos devem estar subordinados à meta de esclarecer a pergunta a ser respondida ao longo de seus estudos. Alguns programas divulgam um roteiro sugerido para o projeto. Convém segui-lo. O PPGCOM da Unisinos oferece um excelente tutorial de elaboração de projetos. Uma técnica que costumo usar: escrevo uma primeira versão do projeto e dou um título. Depois, separo cada conceito no título e verifico se o texto explica cada um deles. Por exemplo, se o título é A pluralização no webjornalismo participativo: uma análise das intervenções no Wikinews e no Kuro5hin, o projeto deve apresentar o conceito de webjornalismo e de pluralização do ponto de vista do jornalismo, além de descrever os objetos (no caso, o Wikinews e o Kuro5hin) e também fornecer indicações metodológicas (como será feita a tal análise das intervenções). Costuma funcionar muito bem comigo no sentido de organizar o pensamento.

Não esqueça de seguir as normas da ABNT na redação.

Como passar na prova

Nenhum mistério: leia atentamente a bibliografia recomendada e responda às perguntas. :-)

Em geral as provas de seleção de Pós-Graduação não perguntam sobre pontos específicos das obras exigidas, mas dão um tema sobre o qual o candidato tem de dissertar. Algumas provas são mais abertas do que outras, mas há sempre uma ampla margem. Não se preocupe em ser absolutamente correto na discussão, até porque não existe verdade absoluta em Ciências Sociais, mas sim em mostrar capacidade de argumentação, sintetização e concatenação de idéias. Uma forma de estudar para esse tipo de prova é escrever dissertações relacionando as idéias dos autores lidos.

Muitos programas também exigem prova de proficiência em alguma língua estrangeira (caso da PUCRS) ou prova de inglês (caso da UFRGS). Em ambas, responde-se sempre em português e exige-se muita tradução. Então, trate de investir na poliglossia, se pretende cursar uma pós-graduação. Pessoalmente, não vejo como hoje em dia alguém pode querer fazer pesquisa sem entender ao menos o inglês, que para o bem e para o mal tornou-se o novo latim.

Lembre-se de que a prova serve apenas para separar os candidatos mais capazes e/ou mais estudiosos do resto. É uma etapa classificatória e eliminatória. Tirar nota máxima não garante a vaga no mestrado, apenas que os selecionadores vão se dar o trabalho de ler seu projeto e entrevistá-lo.

Como passar na entrevista

A entrevista serve para três coisas no processo seletivo para um PPG: a) tentar aferir o grau de sanidade mental do candidato; b) ter certeza de que o candidato está disposto a suportar os sacrifícios monumentais exigidos por uma dissertação e tem condições para tanto; e c) ter certeza de que o projeto de pesquisa foi escrito pelo próprio candidato.

Sobre o item a não tenho dicas a dar, porque depende da personalidade de cada um. Os gestores e professores de um curso de pós-graduação têm uma preocupação principal quanto aos candidatos selecionados: que eles terminem a dissertação ou tese dentro do prazo estipulado pela Capes, o órgão supervisor desse tipo de formação. Convém então passar o máximo de tranqüilidade e credibilidade possível durante a entrevista.

Para dar conta de b, você antes de mais nada precisa ter muita certeza de que quer MUITO fazer mestrado. Sugiro ler o relato da Aline de Campos sobre a experiência de cursar uma pós. Durante a entrevista, fatalmente perguntarão se você conseguirá conciliar trabalho e/ou família com os estudos, se pretende seguir no mestrado mesmo sem bolsa e, no caso de universidades não-públicas, se terá condições de pagar as mensalidades por pelo menos dois anos. Responda com entusiasmo que faria qualquer coisa para terminar e defender a dissertação. Não hesite, mesmo que não tenha certeza, nem se sinta um estelionatário por dar garantias sem ter certeza, porque mesmo gente convicta muda de idéia.

Finalmente, farão perguntas sobre a proposta de pesquisa. O objetivo dessas perguntas é aferir a familiaridade do candidato com a teoria e especialmente com a metodologia. No fim das contas, os entrevistadores querem saber se você sabe onde está se metendo. Solicitarão que descreva as etapas que pretende seguir e como exatamente pretende atingir os objetivos prometidos e responder ao problema de pesquisa. É bom estar preparado para explicar tudo isso, embora provavelmente a pesquisa vá mudar bastante ao longo do mestrado. De fato, os entrevistadores podem perguntar se você aceitaria fazer mudanças no projeto. Diga que sim e demonstre o mínimo de apego possível a seu projeto, até porque à medida que for estudando, você fará correções voluntariamente. Algumas pessoas até mudam o foco e o tema da pesquisa.