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Estelionato de atenção

Capa do UOL

No dia 22 de março, Dia da Água, a capa do UOL amanheceu pintada pelo horrendo tom de azul da reprodução acima. O portal pertencente aos grupos Folha e Abril foi um dos veículos escolhidos para uma ação de marketing da Ambev, cujo objetivo era divulgar um tal Movimento CYAN — daí o tom de azul característico. Outros jornais a aderir foram o Globo e o Estadão, sendo que estes também pintaram a capa das edições impressas.

Não é de hoje que os grandes jornais brasileiros começaram a vender suas capas. Todo mundo sabe que a indústria do jornalismo está periclitante e é preciso ganhar dinheiro como for. Faz parte. Vivemos em uma sociedade em que o jornalismo está submetido à lógica do capital. Não é o ideal, mas ainda é melhor do que uma sociedade sem jornalismo.

Pessoalmente, considero que esse tipo de prática deprecia a credibilidade do veículo frente aos leitores — um perigo, visto que a credibilidade é o principal ativo das empresas de comunicação. A longo prazo, pode se mostrar um tiro no pé entregar ao assinante um jornal com metade de uma capa tamanho standard tomada por ofertas de computadores parcelados em 12 vezes. Porém, não condeno a decisão de pintar as capas de azul.

O que realmente me incomoda é ver uma ousadia como essa ser imposta pelo setor comercial, em vez de partir da redação. Os recursos hídricos são um tema de grande importância, que raramente ganha espaço no noticiário. Receber um jornal com a capa totalmente tingida ou acessar um portal e encontrar tudo azul causa um choque no leitor, que vai parar por um segundo para refletir sobre a mensagem. Nesse caso, porém, o leitor não encontrou uma justificativa para o impacto da capa. Nenhum dos veículos produziu reportagens especiais sobre o problema de garantir água potável para a humanidade. A maioria apenas publicou fotos de rios bucólicos e boletins da ONU.

É um desperdício lamentável. Seria bom ver as empresas de comunicação brasileiras se unindo para conscientizar a população sobre esse tema, produzindo reportagens especiais aprofundadas. Por melhor que seja o material informativo oferecido pela Ambev em sua campanha, não há necessariamente um compromisso com o interesse público. A empresa convida especialistas para dar palestras sobre os recursos hídricos, propõe aos leitores ações para economizar água, mas a problematização fica na superfície. Não se discute a sustentabilidade do modelo econômico atual com maior profundidade — e nem se deve esperar isso de uma campanha publicitária.

Para piorar, os leitores do UOL pensam que a pintura azul foi uma ação editorial. Ou seja, o conteúdo produzido pelo departamento de marketing da Ambev, para o bem ou para o mal, será considerado pela audiência um conteúdo de responsabilidade do Grupo Folha.

Outro exemplo recente foi uma sobrecapa veiculada no jornal Correio do Povo de 31 de março. A peça publicitária tinha projeto gráfico idêntico ao do jornal, inclusive com elementos como a previsão do tempo e o logotipo da Rede Record, e a manchete era “Mestre Mamzumba chega ao Brasil”. De cara, o conjunto da manchete e foto com um africano evidentemente estereotipado me indicaram haver algo errado, mas levei algum tempo até encontrar o aviso de “informe publicitário” no material. Trata-se de uma campanha da Agência Escala para as lojas Colombo, que já vem se desenrolando há mais tempo.

Sobrecapa publicitária do Correio

A confusão ao deparar com a sobrecapa do Correio do Povo me fez perder tempo investigando seu significado. Se soubesse ser um anúncio, teria descartado à primeira vista e seguiria lendo as notícias do dia. O anúncio frustrou minhas expectativas enquanto leitor, pois toda a técnica jornalística desenvolvida ao longo de mais de um século de profissionalização tem como objetivo facilitar a leitura e torná-la mais rápida. Sequestrar a atenção dessa forma pode fazer todo sentido do ponto de vista da publicidade, mas é um erro do ponto de vista jornalístico.

Nos dois anúncios comentados aqui, o leitor é interpelado pela peça gráfica e mobiliza sua atenção — o que Seth Godin chama de marketing de interrupção –, mas esse esforço não é recompensado por um conteúdo jornalístico de qualidade. A meu ver, trata-se de um verdadeiro estelionato de atenção.

Como fazer dinheiro com webjornalismo

Ninguém sabe. Ao menos, é a conclusão a ser tirada pela leitura da melhor reportagem até o momento sobre o mercado de jornalismo atual e futuro, produzida por El País da Espanha. De Clay Shirky a Rupert Murdoch, a opinião de todos os grandes pensadores e empresários foi incluída. Algumas considerações:

  • Engraçado ver proprietários de jornais acusando as ferramentas de busca e outros serviços de distribuição de informação de “roubo” de conteúdo por fornecerem links com manchetes e uma ou duas linhas de texto. A única maneira de compreender essas declarações é como manifestações políticas para tentar forçar os agregadores de conteúdo, empresas de telefonia e provedores de hospedagem a darem uma esmolinha aos jornais. Só isso explica a falha em perceber que sem esses serviços, as versões digitais dos jornais teriam zero leitores. Felizmente, é um dos poucos problemas para o qual existe uma solução muito fácil: deixem de publicar seu conteúdo na Web.
  • O futuro das redações provavelmente passa pela substituição da maioria dos repórteres por free-lancers recebendo por matéria publicada, modelo do qual o coreano Ohmynews foi pioneiro. As redações serão enxutas e formadas por editores, cuja principal tarefa será gerenciar o fluxo de informações vindas dos quatro cantos do mundo, organizar a edição impressa e as capas da edição digital do jornal. Isso traz grandes oportunidades para repórteres fuçadores e com boa imaginação para pautas, ou ainda para aqueles vivendo fora do país, que poderão trabalhar como correspondentes estrangeiros. Reportagem sob demanda, inclusive integrando os amadores às rotinas produtivas de maneira mais profunda.
  • A informação publicada nos jornais se tornará menos confiável. É muito mais difícil para um editor verificar a honestidade de um repórter escrevendo de Katmandu, com o qual mantém contato apenas via Internet, do que o caráter de um colega com quem trabalha todos os dias da semana. Em compensação, a Internet permite verificar os dados e fatos divulgados em uma notícia com maior facilidade. Ou seja, o senso crítico será uma habilidade essencial para o cidadão das próximas décadas. E bons editores serão profissionais cada vez mais valorizados.
  • Por outro lado, um artigo da revista americana The Atlantic, dica do Leandro Sarmatz, mostra um caminho possível para o webjornalismo: investir mais no enquadramento da informação disponível para públicos específicos do que na produção de notícias tentando agradar a todos, como faz a The Economist. Michael Hirschorn vê na interpretação do mundo para uma comunidade bem definida um caminho para manter audiências ao menos razoáveis. O autor traça um paralelo da revista britânica com blogs que faz sentido: nem sempre a redação da revista produz informação inédita e muitas vezes deixa a imparcialidade em segundo plano, mas seus redatores são excelentes em costurar todas as notícias e reportagens de uma edição num retrato compreensível do mundo para a audiência de centro-direita liberal. A aproximação com o formato dos blogs pode ser um elemento para angariar leitores — o problema é vendê-los aos anunciantes depois. (Item acrescentado às 22:30 de 8 de julho.)
  • Cedo ou tarde, alguém vai descobrir como gerar lucro a partir da publicação de conteúdo na Web. Os empresários têm razão quando estranham o fato de a Internet ser a mídia que mais cresce e mais prende a audiência, mas cujo resultado em receitas de publicidade é o pior. O problema parece ser a falta de imaginação dos empresários e publicitários. O UOL publicou um informativo recentemente, no qual expõe dados e mais dados estatísticos com o objetivo de incentivar o investimento em publicidade na Internet. São números realmente entusiasmantes, mas ao final do prospecto, quais são as soluções oferecidas pelo UOL? Banners, anúncios em vídeo, anúncios contextuais ou presença em comparadores de preço. Todos metáforas digitais de publicidade em mídias antigas: impressos, comerciais de televisão, classificados, páginas amarelas. Criatividade zero. É inevitável o aumento da participação da Internet nos orçamentos de propaganda, mas é bastante duvidoso que os clientes destinem suas verbas para esse tipo de anúncios anacrônicos.