Arquivo da tag: violência

É preciso resgatar a boa vontade nas redes sociais

O ano de 2014 demonstrou para todos os participantes de redes sociais a completa incapacidade do ser humano para o debate civilizado e o respeito mútuo. A decepção se cristalizou, para muitos, durante o período eleitoral, mas 2014 foi abundante em casos de desrespeito à opinião alheia e escracho moral no Facebook, Twitter e outras redes menos famosas.

A partir dos anos 1980, o ciberespaço começou a ser descoberto por acadêmicos e futuristas. Muitos se animaram com a informalidade e camaradagem das primeiras duas décadas de fóruns e listas de discussão virtuais. Alguns transformaram esse entusiasmo em previsões de que a Internet se tornaria uma nova Atenas, na qual cidadãos conectados debateriam as questões públicas numa ágora eletrônica.

Mas, então, vieram os anos 2000, o Orkut, o Twitter, o Facebook, as caixas de comentários em portais de notícias e tudo azedou. Protegidos pelo relativo anonimato da comunicação mediada por computador e com acesso a tecnologias de disseminação simples de usar, os mais rematados ignorantes e psicopatas passaram a emporcalhar o ciberespaço com todo tipo de boçalidade.

A camaradagem das duas primeiras décadas de Internet acessível ao público não-especializado foi enterrada sob uma avalanche de idiotice. A mudança de weblogs para redes sociais, cujas interfaces privilegiam a enunciação destemperada e cujos algoritmos privilegiam a a idiotia caça-cliques, tornou as vozes sensatas mais difíceis de encontrar. O resultado foi uma perversão até mesmo das pessoas sensatas em soldados a serviço de uma ou outra ideologia — pior, soldados que atiram primeiro e perguntam depois.

A polarização entre grupos diversos nos anos 2000 e na primeira metade dos anos 2010 causou uma degradação da etiqueta e da civilidade no ciberespaço. Nos esquecemos de que gentileza gera gentileza. Nos esquecemos de que a maior parte das pessoas está tentando fazer o melhor possível na maior parte do tempo. Nos esquecemos, principalmente, de que a discordância é uma característica inextirpável da socialização, uma condição para a democracia e, até mesmo, algo saudável.

Devemos empreender um esforço para resgatar a boa vontade no trato com os outros, antes de o clima de guerra total do ciberespaço contaminar irreversivelmente os outros âmbitos de existência humana.

Um exemplo lamentável

Numa reportagem recente, John Ronson mostra como um tweet infeliz arruinou a vida da relações-públicas Justine Sacco. No dia 20 de dezembro de 2013, antes de embarcar para a Cidade do Cabo, na África do Sul, Sacco publicou a seguinte frase ambígua:

“Going to Africa. Hope I don’t get AIDS. Just kidding. I’m white!”

“A caminho da África. Espero não pegar AIDS. Brincadeirinha. Eu sou branca!”

Pode-se ler a sentença de várias formas:

  1. Literalmente, ela estaria dizendo que pessoas brancas não correm risco de contrair o HIV e sugerindo que o continente africano seja um repositório da doença.
  2. Sacco também poderia estar indicando não ter a menor intenção de manter relações sexuais com pessoas negras durante sua estadia na África.
  3. Pode-se separar as duas primeiras frases das duas últimas, de modo que a primeira parte do tweet seria uma piada com a prevalência da AIDS na região e a segunda parte, uma explicação de que essa piada de mau gosto foi feita porque Sacco é branca e gente branca faz essas coisas sem noção.
  4. Tomado como ironia em seu conjunto, o tweet faz uma crítica ao fato de haver uma forma de Apartheid médico na África do Sul, onde os pacientes de AIDS são predominantemente negros. Os brancos estariam livres da doença por terem mais acesso à educação e a recursos da medicina.

Conforme a própria relações-públicas, o sentido que ela pretendia imprimir à declaração era este último. Todavia, entre esses quatro possíveis sentidos — e deve haver mais possibilidades do que as apresentadas acima –, o repórter Sam Biddle, do Valleywag, decidiu tomar como verdadeiro o primeiro deles. Sacco tinha apenas 170 seguidores no Twitter e poderia ter sido ignorada, mas a publicação da declaração no Valleywag chamou a atenção do mundo e muita gente, de boa ou má fé, seguiu Biddle em sua decisão. Em poucos minutos, o caso havia se tornado trending topic e, ao aterrissar na Cidade do Cabo, Sacco foi recepcionada por um desocupado, que a fotografou para o deleite da multidão.

Antes mesmo de pousar, ela já havia sido demitida pela InterActiveCorp, uma holding de mídia americana. Seus familiares, correligionários de Nelson Mandela, ficaram envergonhados e chateados. Ela passou por um período de depressão.

Nem mesmo o iniciador da caça às bruxas, no entanto, acreditava que Sacco queria dar à frase o primeiro sentido. Biddle admite ter publicado uma nota a respeito do tweet sem pensar nas consequências, apenas em busca da audiência. O mais provável é que ele tenha visto a oportunidade de se divertir e atrair cliques às custas de uma funcionária de uma empresa de mídia concorrente e por isso tenha chamado a atenção para o caso. Da mesma forma, muitos líderes sociais envolvidos na luta contra a AIDS, contra a pobreza, contra a ignorância e contra o racismo devem ter percebido a real intenção da relações-públicas, mas decidiram ignorá-la com o objetivo de promover suas causas políticas.

Uma grande parte dos leitores, porém, deve ter acreditado sinceramente que Justine Sacco publicara uma declaração racista e por isso resolveram escrachá-la em público. Este público de boa fé é o que interessa a essa discussão, pois compõe o grupo passível de resgate das garras da barbárie.

Pessoalmente, eu não vejo como alguém possa ler o tweet em questão e tomá-lo pelo valor de face. Em primeiro lugar, porque a construção da frase indica claramente a intenção de produzir um efeito irônico. Em segundo lugar, porque os outros sentidos carecem de integridade contextual, para usar um termo aplicado a outros aspectos da comunicação em redes sociais. Sacco, afinal, era chefe de comunicação de uma grande empresa, então, mesmo se considerasse a AIDS um problema restrito aos negros africanos, ela provavelmente teria habilidade suficiente para reconhecer o faux pas. Além disso, sendo uma pessoa da área de comunicação residente em Nova York, as chances de concordar com uma afirmação como essa diminuiriam bastante.

Existem, é claro, pessoas bem educadas e habitantes de círculos sociais progressistas que são tacanhas e preconceituosas, mas, para atribuir esse tipo de caráter a Sacco a partir do contexto geral, seria preciso ir contra o princípio da navalha de Occam — isto é, a ironia explica com mais simplicidade a sua manifestação no Twitter do que o racismo desbragado. Evidentemente, os seres humanos e as relações que estabelecem uns com os outros são complexas, mas, em geral, uma frase irônica é de fato uma ironia.

Esclareço não considerar o tweet de Sacco engraçado, oportuno ou razoável sob nenhum aspecto. No mínimo, tratou-se de uma declaração ambígua demais e, portanto, inábil. Além disso, reforça preconceitos contra negros, contra africanos e contra portadores de HIV. No fim das contas, era absolutamente desnecessário. (Tampouco a publicação de frases desnecessárias em redes sociais é uma atitude abaixo de mim; de fato, cometo esse tipo de sandice constantemente.)

Cria corvos e eles te comerão os olhos

Outro caso lamentável e rumoroso ocorrido em 2014 foi o do Tumblr dedicado a expor supostos casos de assédio psicológico ou sexual protagonizados pelo professor de literatura Idelber Avelar. O episódio foi analisado por centenas de ângulos diferentes nos últimos meses, com maior ou menor grau de sensatez. Mereceu pouca discussão até agora, entretanto, o papel que o próprio Avelar teve na construção de uma esfera pública ciberespacial na qual o escracho se tornou um instrumento socialmente aceito de interação entre grupos opositores.

Considero a melhor análise a realizada por Francisco Bosco na edição 19 da revista Serrote, embora tenha um ou outro reparo a fazer a respeito da forma do argumento. Bosco se detém em traçar um perfil psicológico das acusadoras de Avelar, embora existam poucos elementos para esse tipo de empreendimento, mas limita suas inferências a respeito da psiquê de Avelar a notas de rodapé e algumas poucas linhas, apesar de existir um banco de dados muito mais rico a respeito do desgraçado professor na Internet. Neste sentido, concordo com as reclamações de que Bosco foi excessivamente cordial com Avelar em seu artigo. Nem mesmo que fosse apenas para dar a impressão de equanimidade, deveria ter se esforçado mais em mostrar como o alvo do escracho pode ter atraído este tipo de vingança.

Em todo caso, Bosco toca num ponto essencial (numa nota de rodapé, aliás):

22. Acredito que a atuação pública rigorosa de Ibelber Avelar, sempre pronto a apontar as falhar morais ou intelectuais na conduta alheia, tenha se revertido contra ele no processo de seu julgamento nas redes sociais.

Com efeito, Avelar, uma das vozes pioneiras na “blogosfera” nacional, construiu para si ao longo dos últimos dez anos a imagem de paladino do progressismo político de esquerda — ou patrulheiro, a depender do ponto de vista. Manifestava-se a respeito de todas as pautas queridas da esquerda e até 2010 era alinhado ao Partido dos Trabalhadores, o que motivou, inclusive, alguns a identificarem nas acusações uma conspiração petista por conta de sua “traição” à causa. Suas manifestações eram sempre contundentes e em geral reduziam as opiniões e comportamento dos opositores à canalhice ou à ignorância, ou às duas juntas. Além disso, costumava oferecer à larga instruções para o comportamento considerado correto à luz da ideologia de esquerda contemporânea. Em resumo, a persona pública de Avelar era a de um caga-regra.

Eu mesmo costumava ler o ora desativado O biscoito fino e a massa, até o final dos anos 2010, mais ou menos. Nos anos dourados da Internet, interagi vez ou outra com Avelar, mas nunca o encontrei pessoalmente. Lá pelas tantas, porém, a cagação de regras começou a me incomodar, assim como o discurso autoritário da maioria dos outros blogueiros de esquerda cuja produção costumava acompanhar. Desgostoso, deixei de ler blogs sobre política de maneira geral, muito menos me dispus a acompanhar quando as discussões pedestres migraram para as redes sociais. Reduzi os debates sobre política às conversas ao vivo e a trocas via correio eletrônico com alguns poucos amigos com os quais nem sempre concordo, mas com quem posso desenvolver um argumento num clima de civilidade.

Se Bosco se desse o trabalho de analisar melhor a figura pública de Avelar, talvez identificasse nele a mesma tendência ao microfascismo que enxerga em suas acusadoras. Pessoalmente, fiquei surpreso com as revelações a respeito de suas preferências sexuais, de fato um “teatro regressivo do desejo” de tons rodrigueanos, como escreve Bosco, dada a sua fixação no personagem do corno e no adultério. Não me surpreendi, porém, com a arrogância e hipocrisia denotadas por sua intimidade, uma vez que estes são traços típicos do caráter autoritário. Bosco até vê esse traço, na nota de rodapé 26, quando diz que “a contundência de Idelber Avelar se voltou contra ele mesmo”, mas o despreza, porque “a generalização cometida por Idelber Avelar […] não deve ser mobilizada contra ele próprio”, pois “ela é falsa, tanto quanto seu aproveitamento”.

O autor do melhor artigo a respeito do caso perde aqui a oportunidade de oferecer ao leitor uma melhor compreensão das razões pelas quais Avelar sofreu um escracho tão vitriólico. Avelar criou os corvos que vieram a lhe comer os olhos. Ao longo de uma década, ele e seus correligionários alimentaram um estado de caça às bruxas no ciberespaço ocupado pela opinião pública brasileira, mobilizando webrings e, mais tarde, redes sociais contra os críticos das políticas de esquerda implementadas pelo Executivo e pelo Legislativo — nas quais vejo apenas razões para comemorar, diga-se de passagem, pois como os leitores deste blog sabem me alinho à esquerda. À medida em que as contradições dos governos petistas, principalmente, foram se mostrando desde a primeira eleição de Lula, os atores políticos de esquerda foram agindo cada vez mais como camisas negras virtuais contra os críticos, usando quase sempre argumentos ad hominem ou uma suposta canalhice direitista intrínseca como espantalho.

Neste sentido, Avelar pode ser visto como um expoente dos grupos que jogaram lenha na fogueira da polarização do debate público no ciberespaço. Se hoje as caixas de comentários de jornais eletrônicos se limitam ao lançamento de acusações como “petralha” ou “PIG” entre os leitores, em grande parte a situação se deve à obstinação pouco civil destes grupos na defesa de suas ideologias contra uma suposta conspiração da direita. A direita, evidentemente, não está isenta de responsabilidade, uma vez que jornalistas como Reinaldo Azevedo se reinventaram como blogueiros e passaram a adotar uma postura ainda mais tacanha, gerando filhos como Felipe Moura Brasil e Rodrigo Constantino. Por não escreverem em grandes veículos de imprensa, os filhos de Avelar são relativamente anônimos, mas tão corrosivos quanto a prole de Azevedo e Olavo de Carvalho para a esfera pública.

Não penso que o escracho sofrido por Avelar tenha sido proporcional a seus possíveis desvios de comportamento, se é que os houve — seria como culpar a vítima de estupro por causa de suas roupas provocantes. Entretanto,  não creio que seja possível compreender o fenômeno do escracho virtual sem levar em conta o atitude dos atores da esquerda no ciberespaço nos últimos dez anos e Avelar sempre foi um líder e um símbolo neste grupo. Além disso, é irresistível apontar a ironia de ele, devido à própria hipocrisia, se tornar vítima dos corvos que alimentou com sua verve agressiva.

Paz no ciberespaço aos homens de boa vontade

Nos dois casos discutidos acima, pode-se identificar como traço comum a total ausência de boa vontade entre os envolvidos. Se o tweet infeliz de Justine Sacco houvesse sido recebido com boa vontade, teria sido visto como uma gafe lamentável, talvez ensejado um pedido de desculpas, mas provavelmente seu emprego teria sido poupado. Se Avelar, seus correligionários e seus opositores não houvessem se comportado sem boa vontade ao longo de uma década, quem sabe o escracho seguisse hoje como o último recurso de satisfação para as vítimas de torturadores da ditadura brasileira, não como uma forma de vingança mesquinha contra pessoas com quem tivemos relações amorosas infelizes.

Falta boa vontade a todos os participantes do debate público contemporâneo. Eu certamente poderia avançar neste quesito, pois ainda preciso me policiar muito para não gritar “lobo!” ao ver uma ovelha se aproximando no lusco-fusco. Brinco com meus alunos que as atualizações nas redes sociais são um dos poucos fenômenos naturais mais velozes do que o pensamento: ainda estamos no meio do processo de raciocínio e nossos dedos já apertaram “publicar” ou no botão de “retweet”. Desenvolvemos, como sociedade, o hábito da agressividade e do autoritarismo na conversação em rede. Extirpá-lo é difícil, mas precisamos tentar, sob pena de a esfera pública se tornar uma algaravia de solipsistas e fazer desandar a política até mesmo no mundo concreto.

O caso Idelber Avelar, em particular, deveria chamar a atenção de todos e cada um para a necessidade de não alimentar uma cultura de agressividade no ciberespaço. Cedo ou tarde, todos podemos nos tornar vítimas da má vontade, da incompreensão, do voluntarismo, da irreflexão que investirmos nas interações com outros cidadãos na esfera pública virtual. Boa vontade gera boa vontade.