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Pós-graduação em Jornalismo Digital

Gostaria de lhes apresentar meu filho: o curso de especialização lato sensu em Jornalismo Digital, cujas aulas começam em março na Famecos/PUCRS.

Quem entrar no site, desenvolvido pela equipe do Espaço Experiência, vai perceber a integração com ferramentas como Delicious, Twitter e, futuramente, Flickr e Vimeo. Não é à toa: a idéia é não ficar restrito ao estudo e prática das técnicas básicas de jornalismo digital, como edição de vídeos, criação de animações e webwriting, mas incorporar as ferramentas de Web 2.0 e as redes sociais. A nosso ver, a habilidade de lidar com essas características do contexto atual da comunicação são indispensáveis para qualquer jornalista — porque a própria audiência da próxima década está sendo formada nessas redes sociais e pelo uso dessas ferramentas.

Além de uma disciplina voltada especificamente para a sociabilidade no jornalismo digital e um seminário sobre relacionamento com o público, os alunos e professores serão incentivados a usar redes sociais e serviços de Web 2.0 em todas as atividades do curso. São características fundamentais da sociedade contemporânea e portanto são características fundamentais do projeto pedagógico.

Outro avanço curricular que buscamos foi um aprofundamento em programação. Os alunos aprenderão ao menos o suficiente para produzir alguns mash-ups simples que possam ajudar no cotidiano de uma redação digital. Conhecer as linguagens mais usadas no jornalismo — Ajax, PHP, HTML — é também importante no momento de gerenciar projetos.

Um terceiro ponto a ressaltar é o foco na inovação e empreendedorismo. Na última década, as ferramentas de comunicação em escala massiva se tornaram acessíveis não apenas a todos os jornalistas, mas a todas as pessoas. Se antes era preciso ter dinheiro para investir num parque gráfico ou num estúdio para ser seu próprio chefe, hoje é possível criar produtos informativos e noticiosos digitais sem a necessidade de muitos recursos. De fato, o único recurso indispensável para abrir uma empresa é o conhecimento técnico para desenvolver uma idéia.

Para dar conta desse aspecto, foram chamados Marta Gleich, diretora de Internet, e Eduardo Lorea, gerente de pesquisa e desenvolvimento, ambos do Grupo RBS. Ambos vão assumir as disciplinas de gerenciamento e negócios do curso. Além disso, durante a especialização cada aluno deverá criar e planejar um produto digital. O trabalho de conclusão será a entrega de um protótipo do produto. Esperamos com isso fomentar a criação de novas empresas no mercado gaúcho e brasileiro e mostrar aos profissionais, com exemplos palpáveis, as novas possibilidades abertas pela Comunicação Digital.

Além disso, vamos oferecer também uma disciplina de jornalismo em mídias móveis e entraremos na seara da televisão digital, ambos temas de pesquisa científica dos professores da Famecos e ambos temas pouco explorados nos currículos de especializações no Brasil.

Chamo de meu filho e sou o coordenador, mas o curso foi concebido pela equipe de Comunicação Digital da faculdade em conjunto. Os professores Eduardo Pellanda, André Pase e Andréia Mallmann me ajudaram muito na preparação do projeto pedagógico e estão no corpo docente. Por sinal, o Pase está coordenando o curso de especialização em Jogos Digitais, uma parceria da Famecos e da Facin com a Ubisoft.

Em 2010 começam também os cursos de especialização em Cinema Expandido, Branding de Conexão e Planejamento em Comunicação e em Gestão de Crises de Imagem. Todos na Famecos.

Azeredo defende reforma eleitoral

O senador tucano Eduardo Azeredo (sim, o mesmo da Lei Azeredo e o mesmo acusado de envolvimento no esquema do Valerioduto) respondeu por correio eletrônico à carta aberta pela liberdade de informação e opinião na campanha eleitoral de 2010 — a qual, aliás, já está com quase 2,5 mil assinaturas. Segue a íntegra da resposta do senador Azeredo:

SOBRE A REFORMA ELEITORAL E O USO DA INTERNET EM CAMPANHAS

A regra válida hoje para o uso da internet nas campanhas eleitorais é a resolução do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que permite a propaganda por meio apenas dos sites pessoais dos candidatos ou partidos.

O projeto em fase de votação no Senado amplia as normas atuais quando:
1) permite que pessoas físicas façam doações por cartões de crédito, cartões de débito, boleto bancário e telefone;
2) permite a propaganda paga para Presidente da República em sites de cunho noticioso;
3) garante a livre manifestação do pensamento, vedado o anonimato e assegurado o direito de resposta, em blogs, rede sociais, sites de interação e de mensagens instantâneas e em outras formas de comunicação digital – conforme emenda proposta pelos relatores ao artigo 57-D aprovado pela Câmara.
4) também permite que os candidatos façam uso de ferramentas da internet até o dia da eleição.

Não é verdade que a emenda proposta pelos relatores ao artigo 57-D, já aprovada, imponha censura aos sites noticiosos. O que se busca é o tratamento isonômico para os candidatos.

A exclusão integral do texto do artigo 57-D da reforma, como quer o Senador Aloizio Mercadante, validaria novamente a citada resolução do TSE. Além disso, permitiria que portais de notícia, diferentemente do que acontece com os jornais, dessem tratamento privilegiado a determinados candidatos, o que não nos parece coerente ou justo.

Senador Eduardo Azeredo
(PSDB-MG)

Macacos me mordam, mas é preciso concordar com o Azeredo!

Brincadeirinha. O senador usa uma retórica falaciosa, ao tentar passar a impressão de que só existem duas alternativas: ou todo o artigo 57-D é aprovado, ou todo ele é eliminado. Quando avisa sobre o perigo de se eliminar completamente o artigo 57-D, como quer o Mercadante, Azeredo está certo. Caso isso ocorra, cai junto a garantia de liberdade de expressão em canais particulares de comunicação via Internet e volta-se à situação de 2008. Porém, nada impede o Senado de modificar completamente o artigo, mantendo essa liberdade e eliminando a equiparação da Internet com rádio e televisão.

A afirmação de que eliminar a equiparação entre Internet e radiodifusão daria mais liberdade aos websites do que aos jornais também é falácia. Da maneira como a futura lei eleitoral está redigida agora, os websites teriam menos liberdades do que os jornais, embora não sejam concessões públicas como rádio e televisão. O tratamento deveria ser, no mínimo, igualitário entre veículos impressos e webjornais. De novo, é questão de ajustar o artigo 57-D, não eliminá-lo completamente.

Ora, o artigo 57-D obriga os debates e entrevistas com candidatos na Web a seguirem as mesmas condições do artigo 46, cuja seção, inclusive, chama-se “da propaganda em rádio e televisão” na lei eleitoral atual. Ou seja, claramente a Internet está sendo equiparada a essas concessões públicas, uma comparação possível apenas para aqueles que desconhecem completamente o funcionamento da comunicação nestas redes — ou para quem age de má-fé neste debate.

É preciso reconhecer o avanço contido na emenda de Azeredo ao artigo 57-D:

§ 3º É livre a manifestação do pensamento, vedado o anonimato e assegurado o direito de resposta, em blog assinado por pessoa natural, rede social, sítio de interação e de mensagens instantâneas e assemelhados, e em outras formas de comunicação interpessoal mediante mensagem eletrônica, não se lhes aplicando o disposto nos incisos II e III deste artigo.

O cidadão, em tese, estará protegido contra risco de processos ao apoiar um candidato. No entanto, deve-se lutar pelo reconhecimento da Internet pelo que ela é, por parte do Congresso: o sistema de comunicação mais democrático e acessível já criado, diametralmente oposto ao sistema de radiodifusão baseado em concessões estatais. As leis, mesmo as boas, devem ser baseadas na realidade, nos fatos, não em equívocos conceituais.

Mídias sociais e trabalho

Nesta quinta-feira, às 15:00, participo junto com Cezar Paz (AG2), Martha Gabriel, Renee de Paula (Microsoft), Marcelo Tripoli (iThink) do painel “Empregabilidade 2.0: Como encontrar seu próximo emprego utilizando Mídias Sociais”, dentro do 11º Encontro Locaweb. O evento dura o dia inteiro com vários painéis e acontece no Centro de Eventos do Plaza São Rafael. As inscrições custam R$ 50.

Arqueologia da cibercultura

Relendo A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, publicado por Walter Benjamin em 1936, um trecho que passou despercebido nas leituras anteriores chamou a atenção na tese “Exigência de ser filmado”:

Durante séculos, houve uma separação rígida entre um pequeno número de escritores e um grande número de leitores. No fim do século passado, a situação começou a modificar-se. Com a ampliação gigantesca da imprensa, colocando à disposição dos leitores uma quantidade cada vez maior de órgãos políticos, religiosos, científicos, profissionais e regionais, um número crescente de leitores começou a escrever, a princípio esporadicamente. No início, essa possibilidade limitou-se à publicação de sua correspondência na seção “Cartas dos leitores”. Hoje em dia, raros são os europeus inseridos no processo de trabalho que em princípio não tenham uma ocasião qualquer para publicar um episódio de sua vida profissional, uma reclamação ou uma reportagem. Com isso, a diferença essencial entre autor e público está a ponto de desaparecer. Ela se transforma numa diferença funcional e contingente. A cada instante, o leitor está pronto a converter-se num escritor. Num processo de trabalho cada vez mais especializado, cada indivíduo se torna bem ou mal um perito em algum setor, mesmo que seja num pequeno comércio, e como tal pode ter acesso à condição de autor.

Não há quase nenhuma questão atual da Comunicação sobre a qual a Escola de Frankfurt não se tenha debruçado, ou ao menos comentado en passant. A citação de Benjamin resume a lógica da comunicação mediada por computador, cujo aprofundamento é responsável pelos debates em torno de webjornalismo participativo, blogs, Web 2.0, construção colaborativa do conhecimento e situação profissional do jornalista que hoje se travam.

O futuro do jornalismo

No dia 15 de novembro participei de um debate na 54ª Feira do Livro de Porto Alegre, com Matías Molina e mediação de Marcelo Rech, diretor de produto do grupo RBS. As perguntas colocadas por Rech me fizeram pensar em qual seria o modelo mais adequado para o mercado jornalístico no futuro.

Abraçar o webjornalismo participativo

Os jornais não podem dar conta de todos os fatos considerados relevantes por seu público. O trabalho do jornalista é, sobretudo, decidir quais acontecimentos merecerão a honra de virar notícia e quais serão ignorados. Nos mídia tradicionais, isso ocorria porque o espaço no impresso e o tempo no rádio e televisão são limitados. Ou seja, era fisicamente impossível dar conta de tudo. Com a digitalização, descobriu-se que é economicamente impossível dar conta de tudo, porque não há força de trabalho que baste. Assim, continuamos enfrentando o desafio diário de eleger os assuntos mais importantes do ponto de vista do interesse público. O problema é que o cobertor acada ficando curto em todas as frentes. Nem as hard news mais essenciais para a humanidade ganham a atenção devida, nem o buraco no meio da rua é devidamente noticiado.

Uma possível solução para esse dilema é aproveitar melhor o interesse do público em participar do processo jornalístico. Hoje em dia quase todos os webjornais oferecem algum tipo de seção em que o leitor pode ter uma notícia sua publicada. O problema é que em geral esses espaços são separados das seções de “jornalismo sério” como leprosos na Idade Média. Assim, jornalistas e amadores acabam cobrindo as mesmas histórias dentro de um mesmo veículo, às vezes apenas com pontos de vista diferentes. Não precisa ser assim.

Os webjornais poderiam passar a integrar melhor as informações geradas pelo público a seu noticiário, sobretudo no que tange aos fatos mais simples, como buracos na rua, acidentes automobilísticos, incêndios, problemas em serviços públicos etc. Esse tipo de produção já é usado esporadicamente, como é o caso dos vídeos amadores feitos por pessoas que presenciaram um fato. Esse uso poderia ser aprofundado. Poderiam ser criadas equipes específicas para verificar as informações e posteriormente publicar as notícias produzidas por amadores junto às notícias produzidas por profissionais — tudo, é claro, devidamente sinalizado para o leitor. Um exemplo de como integrar repórteres profissionais e amadores vem da própria Zero Hora, com seu Leitor-Repórter. O Terra é outro portal que costuma usar bastante bem as imagens enviadas pelo público, freqüentemente publicando-as no espaço principal da capa. O melhor modelo até agora, porém, é o OhmyNews.

A vantagem dessa integração seria liberar os profissionais das pautas simples, para que eles possam se aprofundar nos assuntos mais relevantes ou demandantes em termos de horas de trabalho. Por outro lado, fatos que jamais ganhariam a esfera pública serão noticiados, arejando o noticiário e atendendo a interesses de mais grupos sociais. Nesse caso, porém, seria preciso encontrar uma forma de recompensar os amadores que doarem seu trabalho para a empresa de comunicação, caso contrário esse modelo se configuraria como exploração de trabalho não-remunerado. Uma idéia interessante é permitir acesso livre ao conteúdo fechado para os leitores que colaboram com o webjornal, ou mesmo dar-lhes assinaturas do jornal impresso.

Criar escassez

Faça a seguinte experiência: compre todos os jornais do dia em sua cidade e compare as notícias de alguma editoria. Digamos, política e mundo. Verifique a assinatura de cada uma das matérias semelhantes. Percebeu algo interessante? Sim, os textos são quase todos iguais, com alguma pequena variação entre parágrafos. Sim, as agências de notícias são as fontes principais da maioria deles. Por algum motivo, as diretorias de jornais acreditam que você deva pagar — ou gostariam que pagasse — para ler notícias que podem muito bem ser lidas de graça nos sites de agências como Reuters, AFP e Agência Brasil.

Nas últimas décadas o número de funcionários nas redações tem caído constantemente. Consoante a isso, os jornalistas mais antigos têm sido demitidos porque ganham mais, ou têm saído voluntariamente porque não agüentam o ritmo de trabalho imposto pela necessidade de “reengenharia” das empresas de comunicação. O resultado são equipes insuficientes e inexperientes e a queda na qualidade do jornalismo. Produzir coberturas sempre originais fica quase impossível. E, de qualquer modo, a maioria dos assuntos políticos e econômicos serão tratados de forma muito parecida porque a técnica e as fontes usadas pelos repórteres são as mesmas.

Uma solução para o financiamento da atividade jornalística pode estar em oferecer material mais atraente ao leitor e cobrar por ele. Os jornais digitais poderiam deixar a informação que pode ser encontrada em outros lugares (abundante) disponível a todos e investir maior esforço de reportagem em pautas inusitadas e exclusivas. Isto é, produzir informação escassa. E escassez, como qualquer estudante de primeiro semestre de Economia sabe, é uma das bases do valor de qualquer produto. Enfim, é preciso primeiro aumentar a qualidade das notícias, para depois querer cobrar por elas.

Adotar micropagamentos

Por que eu devo pagar pela assinatura do jornal inteiro, se apenas algumas partes dele me interessam? Por que não posso pagar apenas pelas notícias que leio? A resposta mais simples para isso é que não existe ainda um sistema de micropagamentos tão fácil de usar quanto receber o jornal impresso em casa todos os dias, ou fazer um pagamento anual via cartão de crédito para ter acesso a sua versão digital.

No entanto, o crowdfunding parece cada vez mais um caminho viável para o jornalismo. Modelos como o da BBC e do The Guardian mostram que o jornalismo produzido por fundações sem fins lucrativos em geral é de bastante qualidade. Um exemplo de que isso pode funcionar é o Back to Iraq, um jornal online dedicado a guerras no Oriente Médio produzido por Christopher Albritton, ex-repórter da AP, que levanta fundos com leitores interessados em uma cobertura diferenciada do assunto para atuar como correspondente. O projeto Spot.us está justamente testando esse modelo.

As possibilidades de aprofundamento da democracia que se abrem com os micropagamentos são enormes. Grupos que não têm espaço na mídia poderiam contratar repórteres para criar um espaço específico. Os pontos de vista na esfera pública poderiam se pluralizar. Ao mesmo tempo, repórteres poderiam escolher o tipo de assunto que querem cobrir. O ganho de eficiência com o meio digital poderia permitir aos jornalistas se reunirem em cooperativas de trabalho que realmente funcionem. Empresas jornalísticas poderiam aproveitar sua grande audiência propor pautas em seus veículos e convidar os leitores a contribuir para aquela reportagem específica, tangenciando o problema de financiamento de coberturas extensas que hoje aflige as redações.

Buscar novos modelos de publicidade

A publicidade na Web é muito mais barata do que a publicidade no jornal impresso, rádio ou televisão. Segundo os diretores de empresas de comunicação, o meio digital ainda é inviável economicamente. O anúncio digital é bem menos eficiente, ninguém clica de propósito em banners e a maioria das pessoas ou nem os percebe, ou sente-se agredida por eles quando se tornam muito invasivos. O problema é que banners são meras transposições do anúncio impresso para a Web. O formato de publicidade mais adequado para esse novo meio ainda não foi criado.

Ou melhor, talvez tenha sido: há cerca de cinco anos o Google aperfeiçoou os anúncios contextuais na forma do AdWords. Esse foi o último formato de publicidade consistente a surgir. Desde então, nem mesmo o Google consegue inventar maneiras de gerar faturamento com o conteúdo de que dispõe. Basta ver os resultados pífios obtidos pelo YouTube até agora. E estamos falando do veículo de mídia mais popular da Web. Isso significa que o formato mais adequado talvez tenha sido descoberto, mas não o modelo de negócios mais adequado.

Será necessário abandonar a idéia de anúncio e passar a adotar a idéia de patrocínio de longo prazo, de associar marcas a veículos de credibilidade, interessantes? Quem sabe mesmo patrocinar pautas específicas, assim como hoje as empresas patrocinam cadernos especiais? Organizações poderiam fazer doações para manter “cátedras” nas redações, postos específicos para a cobertura de determinados assuntos. O problema que se coloca, evidentemente, é o da promiscuidade entre interesses econômicos e jornalísticos. Um modelo desse tipo deveria ser acompanhado de meios de fiscalização do trabalho resultante.